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terça-feira, 4 de março de 2014

A CRISE DA GEOGRAFIA NO CONTEXTO DA CRISE DA MODERNIDADE




Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca
 INTRODUÇÃO

Vive-se um momento de crise profunda da ciência e das técnicas, fruto da grande crise paradigmática que permeia os tempos modernos. No interior da crise da modernidade, a Geografia debate sua própria crise.
O aumento da velocidade da informação, dos transportes, das telecomunicações e da rede mundial de computadores “diminui” as distâncias entre os povos. A relação espaço/tempo configura-se de acordo com a lógica da velocidade. Estes são aspectos que caracterizam os tempos modernos, que marcam a “derrubada” das fronteiras econômicas entre os diversos povos. A “sociedade global”, por meio da tecnologia de última geração descortina também a crise, sem precedentes, que marca os tempos modernos. Estes são alguns aspectos que se pretende levantar para o entendimento do lugar da escola e da Geografia no atual modelo de desenvolvimento econômico.
Trata-se de uma sociedade chamada de “altamente informatizada”, mas que, no fim das contas, desinforma, que no fim das contas atomiza as pessoas como partículas insignificantes dentro do colossal universo da degradação ambiental e da degradação econômica, política e cultural do ser humano. Trata-se de uma sociedade que coloca o homem na luta contra sua própria espécie e, em última instância o coloca na luta pela derrocada de todo o sistema planetário, para, enfim glorificar e fazer triunfar a mais valia como mola mestra do modo de produção capitalista.
É dentro deste contexto que se situa a sociedade da modernidade. É neste contexto, onde o homem coisificado e atomizado luta, desesperadamente, em busca de um novo paradigma, o qual resgate a sua dignidade e dê a ele nova significação e uma razão real para sua existência. É, ainda, neste contexto que se digladiam a forças oriundas do racionalismo/positivismo e as forças oriundas da gestação de um novo paradigma que resignifique a existência humana.
A falsa justificativa do atual modelo de desenvolvimento cria um imenso abismo que separa a concentração da riqueza material no hemisfério norte da concentração da pobreza no hemisfério sul. Tal justificativa, em nome do progresso técnico e científico, na chamada sociedade globalizada aniquila a cultura, as etnias, os costumes e as tradições dos povos, criando, assim, um conjunto de populações totalmente desprovidas de identidade cultural.
O epicentro da chamada “sociedade Global” localiza-se exatamente sobre a necessidade urgente da expansão e reprodução do capital e, para isso não se medem esforços, nem consequências. Observa-se a brutalidade da expansão e reprodução do capital através da fome e da miséria absolutas que se espalham por todo o planeta. No mundo todo são milhões e milhões de desempregados e famintos, um exército de zumbis que compõem a reserva de mão de obra barata e descartável a serviço do capital.
A globalização econômica se caracteriza pela produção urbano/industrial, pela mobilização do capital especulativo, volátil, que gira o planeta em busca de mão de obra barata e de condições propícias para sua reprodução e, sobretudo, pelas inovações decorrentes da Terceira Revolução Tecnológica, tais como: o aumento da velocidade do sistema de informações, por meio dos avanços das telecomunicações, dos transportes e da rede mundial de computadores (Internet) via desenvolvimento espetacular da informática.  Além disso, é fundamental ressaltar o avanço extraordinário da biotecnologia, devido ao desenvolvimento das pesquisas no campo da engenharia genética e à expansão do capital em direção ao campo, o que se dá por intermédio dos grandes conglomerados internacionais e transnacionais.
De fato, se por um lado a globalização econômica esconde-se por detrás de um discurso inovador, por outro ela aprofunda as contradições do modo de produção capitalista. Essas contradições expressam-se através do desemprego, da violência urbana, da fome, da miséria, do analfabetismo, das doenças e das condições subumanas da maioria da população do planeta. Então, a quem serve a globalização econômica? Em que ela favorece a grande maioria da população mundial? Para onde vão as riquezas produzidas pela expansão e reprodução do capital? Essas indagações só podem levar a uma única conclusão: a armadilha do discurso da inovação tecnológica e científica expressa na globalização, tenta em vão esconder a outra face da moeda, ou seja, a crise civilizacional, ocidental ou da modernidade.
1 – A QUEM SERVE A CIÊNCIA, AFINAL?
Os centros de pesquisas, a academia e a produção do conhecimento científico estão tão distantes dos problemas e da realidade do cotidiano das populações como o sol está distante da terra. Eis aí o epicentro da discussão sobre os grandes problemas que assolam a humanidade nos tempos modernos. Para que e a quem serve a ciência afinal? A escola e a academia voltam a reafirmar, com grande ênfase, sua tendência a legitimar os interesses dos detentores do poder político e econômico e, assim, reproduz o discurso homogeneizador de uma escola igualitária, sem arestas e que desconsidera o grande abismo da desigualdade social, os preconceitos e as diferenças entre os educandos. Este modelo de educação visa manter a escola como mercadoria para atender às demandas do mercado consumidor capitalista. Neste contexto, os alunos não passam de meros reprodutores do discurso dominante, o que aumenta, ainda mais, a distância entre a escola e a população. Os educadores/educandos seguem a receita positivista da coisificação do homem e da natureza diante da lógica nefasta do modelo capitalista de desenvolvimento.
Desta forma, é preciso analisar a produção do conhecimento científico pontuando os elementos que podem fazer sua aproximação com o cotidiano das populações. Esta prática requer do educador (a) uma nova forma de enxergar a ciência e uma nova postura diante dela. Isto significa dizer que os educadores (as) devem se permitir e se dignar a descer de seu palanque para dialogar com seus educandos. É preciso construir a relação dialógica educador/educando/sociedade.
Os idealizadores do pensamento neoliberal (que nada mais é que o velho liberalismo de roupa nova) caracterizam a produção do conhecimento científico, a academia, a escola como desprovidos de ideologia, neutros, uma ciência isenta de intenções. Esse discurso tem por objetivo legitimar a exploração capitalista e direcionar a produção do conhecimento para atender os desejos e anseios das elites dominantes.
Para se compreender a essência da produção do conhecimento e o desenvolvimento das ciências, é preciso, antes de tudo, analisar o discurso que permeia a construção do conhecimento, o jogo de interesses, as situações conflitivas, as contradições e as disputas embutidas nesta construção. É preciso desconstruir a falácia da isenção ideológica, com que tentam encobrir o desenvolvimento das Técnicas e das Ciências.
Para contextualizar o debate, em primeiro lugar é preciso voltar a algumas indagações, de maneira que se possa iniciar a discussão, exatamente, pelo princípio: O que é o conhecimento? Por quem ele foi produzido? Para que ele foi produzido? O que ele trouxe de benefício para a humanidade? O conhecimento significa progresso ou retrocesso?
Em primeiro lugar é preciso tentar desmistificar a construção do conhecimento, é preciso desconstruir o discurso positivista, que isenta sua produção de qualquer intenção, de quaisquer interesses. Não, o conhecimento é impregnado de intenções, carregado de conflitos, de interesses, de ideologias. Sua produção e/ou reprodução reflete as tendências, interesses, ideologias presentes em cada período da história das “civilizações”. Desta maneira, é preciso despir a produção do conhecimento, das técnicas e das ciências de toda a hipocrisia que permeia o discurso dominante de isenção em nome de métodos e critérios científicos.
Em segundo lugar, é preciso identificar o conhecimento como algo criado, produzido e reproduzido durante milhares de anos e, como fruto da produção humana é passível de erros, equívocos e acertos. Como fruto da produção humana não são eternos, acabados, definitivos e, portanto, não podem se constituir em verdades absolutas. O conhecimento é, pois, algo construído segundo as experiências e anseios humanos e, desta forma encharcado de intenções, algumas delas as piores possíveis.
O conhecimento considerado válido é aquele que serve para legitimar a lógica do chamado “progresso”, arduamente defendido pelas elites, em cada período da história da humanidade. Desta forma, o conhecimento produzido pela maioria das populações é considerado inválido, inútil, descartável, contrário às ideias de progresso consagrada através dos tempos pelos dominantes.
A ideia de progresso aparece aí acompanhada do discurso de isenção da ciência e das técnicas, as quais são colocadas em benefício da humanidade. Mas, a qual humanidade esse discurso se refere? Certamente, esta humanidade é representada pelos tecnocratas que ditam o seu destino, os mesmos que, através dos processos de reprodução do capital, alijam do processo produtivo milhões e milhões de homens e mulheres, os mesmos que aniquilam a cultura, as tradições, as expressões artísticas e os costumes dos povos. Enfim, os mesmos que levam à miséria continentes inteiros, e espalham o terror por meio da fome. Este é o “progresso” da modernidade. E é para garantir esse “progresso” que o conhecimento é produzido, é para garantir esse progresso que se prega uma ciência isenta de intenções, que seja capaz de garantir o bem estar da humanidade. Esta é a base do racionalismo que sustenta a sociedade capitalista da modernidade.
Hoje, além do discurso da neutralidade científica, a superestrutura econômica da modernidade apropria-se do discurso dos dominados, de suas reivindicações históricas para justificar a exploração inesgotável daqueles que produzem a riqueza material que mantém viva esta exploração. Esta apropriação vem na fórmula de uma educação igualitária, sem arestas, com igualdade de oportunidades, desconsiderando o grande abismo da desigualdade social, considerando supostamente iguais os diferentes.
E, nesta direção grande parcela da comunidade científica perpetua o discurso positivista, falando em nome da racionalidade do racionalismo. A defesa da pretensa neutralidade científica acaba por solidificar, cada dia mais, os alicerces da “lógica” positivista, perpetuando, assim, a exploração do homem pelo próprio homem. Para parcela significativa de cientistas, tudo que foge à explicação “lógica” das ciências naturais e de seus métodos e critérios, não serve para nada, pois, passa por fora do “discurso”[1] da ciência, tudo precisa ser explicado segundo enunciados, leis e teorias lógicas, portanto, a subjetividade humana e suas necessidades não possuem validade científica.
Então, a ciência nos dias atuais se confronta com dois modelos diferenciados: há os que defendem a neutralidade da produção do conhecimento científico, e que no fim das contas fazem o discurso da manutenção do status quo, ou seja da continuidade do modelo positivista e, há os que se rebelam contra esta ordem estabelecida, procurando formular novas questões e responder antigas indagações, tendo como objetivo a construção de um novo paradigma, por meio da ruptura com a irracionalidade do racionalismo.
2 - A CRISE DA GEOGRAFIA NO INTERIOR DA CRISE DA MODERNIDADE
Os tempos modernos descortinam a grande crise civilizacional: a crise de projetos de homem e de natureza. E, no interior das crises civilizacional, das técnicas e das ciências, também a Geografia debate sua própria crise. Trata-se de uma crise que se agudiza, de forma cada vez mais evidente. A Geografia, a todo momento, perde seu objeto de estudo, devido à sua crise interior, intestinal. Enquanto a grande crise paradigmática dos tempos modernos exige soluções para sua superação, a geografia se debate fragmentando seu próprio objeto de estudo, por intermédio de discussões infrutíferas sobre dois possíveis campos de investigação: a “Geografia Física” e a “Geografia humana”, as “duas Geografias”.
Os investigadores do pensamento geográfico são incapazes de perceber, compreender e apreender a ciência como um todo. São incapazes de associar a ação humana à paisagem, ao relevo, à vegetação, ao solo, enfim acabam por considerar o homem como sujeito passivo, sem uma perspectiva histórica e social. Acabam por negar a capacidade humana de transformação, de ação sobre o ambiente, acabam por se adptar à miopia ocular, ao perceber o homem como um ser estático, imutável, incapaz de interagir com o ambiente em que vive, uma paisagem morta. Nesta perspectiva a ciência geográfica perde o sentido, sua razão de ser.
Isto, sem considerar aquela parcela de “estudiosos” que acaba sucumbindo perante o discurso liberal-conservador e, dessa forma, passam a reproduzir tais discursos, mercantilizando o saber geográfico, colocando-o a serviço da expansão e reprodução do capital. As fragmentações do campo da geogafia sucumbem uma a uma diante da irracionalidade do desenvolvimento do atual modelo econômico que rege a sociedade moderna. As relações de trabalho no campo, o braço estendido do capital sobre o espaço agrário, acabam com a dicotomia cidade-campo, deixando desorientados os estudiosos da chamada Geografia Agrária. Do mesmo modo, a globalização econômica dizima a cultura os costumes as tradições dos povos, por meio do etnocentrismo, desnorteando também os estudiosos da denominada Geografia Cultural. Um a um os vários fragmentos desconexos do campo da Geografia tombam como peças de dominó, diante da lógica nefasta da reprodução e expansão do capital. Aí colocam-se as perguntas: Quais os objetos de estudo da Geografia? Como fica a reorientação do pensamento geográfico diante da nova relação espaço/tempo? Como a Geografia percebe a ação antrópica no ambiente? Como deve se posicionar a Geografia, diante da crise de paradigma da modernidade? Como aproximar a Geografia do cotidiano das populações? Qual a reflexão epistemológica da Geografia diante da relação sociedade/natureza nos dias de hoje?
É necessário procurar, urgentemente, as resposta a essas indagações. E, para isso, a Geografia precisa assumir nova postura diante dos graves problemas que assolam a humanidade. Ela precisa assumir nova postura diante do cotidiano da sala de aula, aproximando, concretamente, a academia dos problemas reais de educadores (as) e educandos (as). É preciso construir uma nova Geografia, não fragmentada, solidária, transformadora, militante, uma geografia que saia “de cima do muro”, que assuma uma postura de rebeldia perante a ordem econômica estabelecida.
A denominada “Geografia Crítica” deu importantes passos no sentido de superação teórica dos velhos métodos e concepções estabelecidos pela Geografia Tradicional. Porém, estes avanços ficaram quase que somente na teoria ou nos debates de congressos e acadêmicos, não obtiveram repercussão no trabalho didático em sala de aula. Por que eles não se traduziram em resultados práticos na sala de aula? Por que não se observa a construção de reflexões críticas ou de mudanças comportamentais dos educandos (as) do Ensino Fundamental e Médio? Estas perguntas precisam ser respondidas não pelos educandos (as), mas pelos pesquisadores (as) e educadores (as).
3 - A REFORMA EDUCACIONAL E O ENSINO DE GEOGRAFIA E HISTÓRIA
A tão propalada Reforma Educacional faz parte de um pacote de reformas que orienta dos planos neoliberais. O eixo central desses planos consiste na denominada política do Estado Mínimo, isto é, os diversos Estados Nacionais, embasados num discurso de contenção de gastos e ou “Enxugamento da máquina do Estado”, repassam para a iniciativa privada setores que antes eram de sua responsabilidade. Assistiu-se, com mais evidência, a execução destes planos nos dois mandatos FHC e que têm continuidade agora no governo Lula da Silva.
Como exemplos destacam as privatizações no sistema financeiro estatal (privatização de vários bancos dos diversos Estados da Federação), nas empresas estatais (Vale do Rio Doce, Usiminas, Telebrás, a Petrobras, que vem sendo vendida em pequenas fatias, dentre várias outras). Este sucateamento do patrimônio do povo brasileiro atingiu, em cheio, os setores da saúde e da educação.
A ideologia neoliberal propôs e executou cortes drásticos na educação, congelando os salários dos professores, por anos a fio, além de diminuir, significativamente os recursos dedicados a ela. Assim, com um discurso em nome da qualidade do ensino, a reforma educacional vem privatizando e sucateando o ensino, entregando centros de pesquisas importantes para a iniciativa privada, principalmente para os grandes grupos transnacionais. A pesquisa científica perde, de uma vez por todas, seu papel de produzir tecnologias voltadas para o bem-estar da humanidade, em detrimento dos interesses da iniciativa privada.
O ensino de Geografia e História vem sendo atingido em cheio, com a diminuição das verbas para pesquisas, baixo salários dos professores, inexistência de equipamentos e recursos para laboratórios, falta de apoio para trabalhos de campo. Outra questão totalmente esquecida é um programa sério de formação continuada de professores, os quais, sem a devida formação, têm que trabalhar conforme as novas propostas da legislação ambiental, como os Parâmetros Curriculares Nacionais. Então, apesar dos debates acadêmicos. Os professores que militam na educação de base têm que se contentar com os velhos e arcaicos métodos tradicionais de ensino e o mesmo livro didático. A prática do ensino de Geografia tem que repensada no âmbito de toda a comunidade escolar, cavando uma trincheira no interior da escola, de resistência ao projeto neoliberal. A luta é para que a ciência avance de uma tecnocracia que domina o homem, para uma tecnologia a serviço da humanidade.   


[1] Grifo do autor: aqui quer se destacar a ideologia contida e oculta na suposta neutralidade do método científico.

domingo, 2 de março de 2014

O que são Impactos socioambientais, afinal?

Impactos socioambientais urbanos                                                     Fonte: Valter Machado da Fonseca (2012)
Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca
Quando falamos de “impactos”, estamos nos referindo a desequilíbrios, a alterações naturais e/ou promovidas pelo ser humano em determinado ambiente. Acerca deste assunto, abro uma profunda discordância sobre o termo “degradação”, muito utilizado nos estudos socioambientais nos dias atuais. O termo degradação puxa para si a ideia de “irreversibilidade”, de “não retorno” às condições originais, o que para mim não se constitui numa verdade.
Explicando melhor a polêmica
Para elucidar de forma mais detalhada esta questão, talvez seja importante nos valermos de um exemplo prático: quando desenvolvemos uma determinada atividade agrícola (uma plantação de uma mesma espécie vegetal) por anos a fio em uma mesma área, mesmo com o uso intensivo de insumos, a tendência natural é que este solo fique cansado, com a consequente diminuição de sua quantidade e qualidade de seus nutrientes, o que incide, diretamente, para a queda de sua produção agrícola.
Porém, se deixarmos de lado esta atividade nesta área (por 20 anos, por exemplo), nos esquecermos desta área, abandoná-la sem desenvolver ali quaisquer atividades, observaremos que, ao término deste período, a área estará quase totalmente revegetada com espécies naturais no próprio bioma. É o que os mateiros e pequenos agricultores costumam se referir que “o mato tomou conta”. Isto nada mais é do que a natureza retomando seus domínios, redemarcando seu território, redistribuindo sua vegetação original. Isto é uma prova cabal de que a degradação (que traz consigo a irreversibilidade) não se aplica e, que o termo desequilíbrio é mais apropriado para as áreas impactadas pelas atividades humanas.
Trocando em miúdos!
É notória a centralidade e essencialidade de energia para o funcionamento de quaisquer ecossistemas, sejam eles antropizados ou naturais. A natureza, sábia por excelência, tratou de distribuir as espécies de seres vivos (animais e vegetais) em diversas regiões do planeta, seguindo um processo referenciado na demanda e produção de energia.
Podemos verificar que nas regiões que recebem maior quantidade de energia solar, também a biodiversidade é mais diversificada e, consequentemente, mais complexa. Numa hileia tropical, como a nossa Floresta Amazônica, por exemplo, podemos verificar a existência de bilhões de espécies de microrganismos distribuídos no solo, no ar, e em materiais em decomposição, centenas de milhares de insetos, centenas de espécies de roedores, milhares de tipos de peixes, centenas de variedades de mamíferos e também milhares de espécies de aves, espalhados em vastíssimas áreas recobertas por dezenas de milhares de espécies de árvores diferentes, entrelaçadas por espécies de menor porte e cipós. Estima-se que nesta floresta tropical esteja presente 30% de todas as sequências de DNA, que a natureza combinou em todo o planeta. (Conservation International, 2003)
Esses dados nos mostram a grande quantidade de energia que é consumida para manter em funcionamento toda a complexidade desta gama gigantesca de biodiversidade. Só que em ecossistemas naturais, existe certo equilíbrio entre a quantidade de energia que entra e a quantidade que sai do ecossistema. Prova disso, é que em ecossistemas que recebem menor quantidade de energia, a exemplo das regiões frias e temperadas do planeta, a tendência é que a vegetação vai se homogeneizando, como ocorre, por exemplo, com as florestas de coníferas, localizadas especialmente no Canadá e no norte dos EUA. Quanto mais homogêneo é um ecossistema, menor quantidade de energia ele gasta.
Neste sentido, os estudos de Dias (2002) sobre demanda e consumo de energia nos auxiliam no entendimento da importância da energia nos ecossistemas naturais e antropizados:

Os sistemas naturais obedecem a leis termodinâmicas implacáveis. São elas que estabelecem, por retroalimentação, os diferentes mecanismos de auto-ajustamentos responsáveis pelo funcionamento dos ecossistemas. À medida que aumentam o tamanho e a complexidade de um sistema, o custo energético de manutenção tende a aumentar proporcionalmente a uma taxa maior. Ao se dobrar o tamanho de um sistema, torna-se geralmente necessário mais que o dobro da quantidade de energia, a qual deve ser desviada para se reduzir o aumento da entropia, associado à manutenção da maior complexidade estrutural e funcional. (DIAS, 2002, p.43)      

Então, os ecossistemas são controlados pela entrada e saída de energia. Quando são submetidos à ação antropogênica há um deslocamento do equilíbrio energético no interior destes ecossistemas, interferindo-se, assim, em sua dinâmica de funcionamento interno. Então, temos que perseguir um modelo ou modelos que menos interfiram na dinâmica energética natural dos ecossistemas.
Importante!
Então, a intensidade dos impactos ambientais em determinada área é diretamente proporcional à quantidade e intensidade de atividades humanas na referida área. Quanto maior e mais intensas forem as atividades humanas em determinado local, maior será o desequilíbrio energético neste local.
Então, como ficam os impactos nos centros urbanos? 
Nos centros urbanos, diferentemente dos ecossistemas naturais, o nível de impactos é extremamente mais elevado, em virtude da maior quantidade e intensidade das atividades humanas, localizadas em áreas onde se concentram atividades domésticas, industriais, comerciais, de lazer, transporte, dentre outros serviços.
Segundo Fonseca (2009), podemos dizer que os ecossistemas urbanos e, particularmente, as cidades são a síntese da ação humana sobre a natureza. São áreas denominadas de “espaços de natureza ausente”, justamente porque no espaço urbano a natureza foi substituída pelo sintético, pelo artificial. Ele continua sua argumentação:

A cidade nada mais é que o trabalho humano materializado, cristalizado ao longo do processo histórico e social da humanidade. A cidade, investigada, simplesmente em seus aspectos materiais, em sua estrutura física, desnudada, fria e sem vida não passa de um símbolo oco, opaco, vazio, sem significação. Desta forma, o urbano emerge para significação da cidade, enquanto palco dos conflitos, contradições, construção de representações significativas da razão de ser da subjetividade humana, dando a ela o conteúdo necessário à construção de sua essência. O urbano emerge, então, como característica das atividades humanas, das relações históricas e sociais do sujeito (re)significando, construindo a razão de ser das cidades. Aí, os contraditórios do subjetivo humano e de sua relação com a natureza fluem entre os tijolos, concreto, armações metálicas, ruas e avenidas, praças, pontes e viadutos, isto é, percorrendo-a em todos os seus interstícios e labirintos. A atividade humana localizada e enquadrada numa porção da natureza, modificada pelo próprio homem, configura o espaço urbano. Portanto, o espaço urbano nada mais é que a cidade somada à atividade humana e que se (re)orienta e se reproduz num movimento contraditório e contínuo em cada período histórico da sociedade, orientado pelos aspectos históricos, sociais, políticos, econômicos e culturais que caracterizam a história da humanidade em cada período, e, cuja configuração atinge seu ápice aprofundando sua crise na sociedade capitalista da modernidade. (FONSECA, 2009, p.48-49)

No mesmo sentido, Lefebvre (1991, p.67) completa a citação de Fonseca (2007):

Você está no mundo das imagens. É um mundo sem substância, que nega toda substância, toda particularidade. Os teóricos o admiram e teorizam porque formal, por isso ele é tão pobre em formas! Este mundo parodia a diferença, simulando-a, tomando-se por ele. [...] os signos da natureza deve-se recriar, reproduzir. O vazio se povoa de signos. Bibelots, plantas, objetos kitch, matérias brutas ou trabalhadas, substituem a natureza ausente, significando a naturalidade, evocando durante sua destruição, reduzindo inútil (aparentemente) sua reconstrução.

Então, o ambiente urbano na sua totalidade é construído da soma das atividades humanas localizadas numa porção de “natureza ausente”, a cidade. Então podemos verificar que este espaço é um emaranhado de construções físicas e simbólicas, resultante da ação secular do homem sobre a natureza. Mas, na sociedade do capital, a cultura, o conhecimento e as experiências produzidas no espaço urbano são, sistematicamente, transformados em mercadoria.
A cidade não passa de uma porção coisificada do espaço, onde toda construção física e intelectual são moldadas pela racionalidade técnica a serviço da plena expansão e reprodução do capital.  A figura 01 a seguir, é um esquema representativo de um sistema urbano, onde ocorrem a entrada e saída de diversos elementos, grande parte deles é provocada pela ação humana, o que sobrecarrega e desestabiliza energeticamente o ecossistema.  
Parada para reflexão!
Então, é interessante fechar este tópico com uma reflexão: Embora os ecossistemas possam ser impactados por fenômenos e causas naturais, a maioria dos impactos sobre eles são decorrentes das atividades laborativas humanas, numa sociedade marcada pelo aumento substancial de intervenções humanas sobre os recursos naturais (finitos), visando à produção de mercadorias para o atendimento do mercado consumidor. Imaginem a quantidade de atividades humanas estão ocorrendo neste momento em metrópoles como São Paulo, Cidade do México, Nova Iorque, Tóquio, Pequim, dentre outras. Imaginem o nível de desequilíbrio energético em centros urbanos deste porte. Depois de realizar esta reflexão, tente elaborar um pequeno texto pontuando as principais atividades industriais, econômicas e sociais localizadas nestas áreas altamente urbanizadas.
Referências
DIAS, G. F. Pegada ecológica e sustentabilidade humana. São Paulo: Gaia, 2002.
FONSECA, Valter Machado da. SINAL DE ALERTA: Amazônia, o bioma ameaçado. In: IV Fórum Ambiental da Alta Paulista, 21 a 24 de julho de 2009, Estância Turística de Tupã (SP), CD-ROM (Anais). ISSN: 1980-0827.
LEFEBVRE, H. A Vida Cotidiana no Mundo Moderno, Trad. Alcides João de Barros, São Paulo: Ática, 1991.

DESEQUILÍBRIO CLIMÁTICO TRAZ NOVOS ELEMENTOS PARA PESQUISA

Foto: Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca                                                     Fonte: Arquivo Pessoal (2014)
Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca*
Os recentes eventos das alterações climáticas do último período trazem à luz novos e importantes aspectos e elementos para nossa pesquisa “A Dinâmica dos Ecossistemas”. O estudo que ora desenvolvo visa analisar os elementos físicos, químicos e biológicos que compõem os elos entre os mais diversificados ecossistemas terrestres e aquáticos. Compreender o funcionamento destas zonas de transição pode levar à descoberta de modelos matemáticos capazes de explicar o princípio de funcionamento desses ecossistemas, bem como das diversas particularidades das ligações entre eles.
Os fortes desequilíbrios climáticos deste último período já provoca certo desequilíbrio sobre as forças que interagem para a manutenção do funcionamento destes ecossistemas. A água, então, assume um lócus essencial para a compreensão deste funcionamento. A escassez ou mesmo a ausência dela modificam as fitofisionomias e os princípios gerais que mantém o frágil equilíbrio das ligações ecossistêmicas.
Assim, se por um lado estas alterações climáticas provocam enormes malefícios para as diversas populações de seres vivos, por outro lado, elas podem nos fornecer um conjunto de elementos físico-químicos e biológicos que possam nos auxiliar na compreensão do funcionamento geral desses ecossistemas, bem como no comportamento das ligações entre eles. Cabe a nós, observar o comportamento dos ecossistemas como um todo, bem como das interações entre suas partes. Desse modo, as “Alterações Climáticas” podem nos fornecer uma série de elementos e variáveis para avançar na pesquisa acerca da “Dinâmica dos Ecossistemas”.       


* Escritor. Geógrafo, mestre e doutor pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor e pesquisador das temáticas “Alterações Climáticas” e “Impactos socioambientais sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos”. E-mail: pesquisa.fonseca@gmail.com

Os shoppings centers: símbolos sagrados da sociedade do supérfluo

Fonte: www.reggaenomato.com.br


Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca*
Recentemente, a mídia destacou com prioridade as notícias dos tais “rolezinhos”. Mas, o que vem a ser isto afinal? Trata-se de um bando de adolescentes, adestrados na cultura do consumismo, que se reúnem para dar um rolé nos shoppings centers das grandes e médias cidades do país. É uma prova clara e evidente da contracultura ou do processo de aculturação dos jovens que, sob influência da própria mídia, cultuam o consumismo, o supérfluo e o descartável. É uma evidência definitiva do vazio que habita as mentes e os corações dos jovens e adolescentes, pela extinção dos valores morais (não da moral capitalista apregoada pela mídia) que extirpa a identidade cultural dessa parcela da juventude.
O capitalismo acaba por criar mecanismos imprescindíveis para a manutenção de autorreprodução que, no final das contas, vão contra seus próprios princípios de defesa incondicional da propriedade privada. Esses jovens ao dar seus rolezinhos pelos “sagrados” shoppings centers, acabam sendo seduzidos pelo fetiche dos produtos ali exibidos e, não resistindo à sedução do consumo, acabam por se apropriar deles de maneira ilícita. São as gritantes contradições da sociedade do culto ao supérfluo e ao descartável.
É interessante verificar o poder que a mídia capitalista exerce sobre esta parcela da juventude. Muitos deles chegam a se intitular “famosinhos”, pela simples propaganda que eles fazem sobre si mesmos nas mídias sociais. Na verdade, no Brasil não é preciso fazer muita coisa para ser considerado famoso. Vejam, por exemplo, os realities shows presentes nas principais emissoras de TV. São programas deste tipo que levam a juventude a se auto proclamar famosinha. O capital constrói valores fictícios artificiais que acabam servindo para balizar as vidas de amplos setores da população, em especial crianças e jovens.
Em última instância, o capital tenta extirpar, de uma vez por todas, o conjunto de valores morais que pode impedir sua expansão, e reprodução, ou seja, quaisquer valores que impeçam o ímpeto da mais-valia. Estes rolezinhos são a prova cabal da falta de projetos que povoa as mentes de crianças, jovens e adolescentes. Neste sentido, a sociedade globalizada vem destruindo, um a um, todos os valores morais duramente construídos através dos tempos pela humanidade. Vem extirpando das comunidades, grupos étnicos e sociais, as tradições aspectos culturais, costumes e hábitos secularmente consagrados, por banalizações impostas pela mais-valia. São os sintomas claros da barbárie que desponta, ainda com mais evidência, no horizonte do século XXI.             


* Escritor. Geógrafo, mestre e doutor pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor e pesquisador das temáticas “Alterações Climáticas” e “Impactos socioambientais sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos”. E-mail: pesquisa.fonseca@gmail.com