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terça-feira, 24 de maio de 2011

Novo Código Florestal: ética ambiental x impunidade

Prof. Ms. Valter Machado da Fonseca*
A votação do novo Código Florestal é manchete nos principais meios de comunicação brasileiros nos últimos dias. Como sempre ocorre com os debates ambientais neste último período, o que está como principal foco das discussões e debates não é a apresentação de propostas eficazes que possam dar conta dos principais problemas ambientais, que tanto tem preocupado a população, mas as discussões se centram em como burlar a legislação ambiental para proteger os infratores que cometem inúmeros crimes ambientais pelo país afora. Aliás, as ausências de uma política fundiária, séria e eficaz, de fiscalização e combate aos crimes ambientais [em especial nas grandes áreas de desmatamento e queimadas], de punição dos principais responsáveis pelos desmandos ambientais, conjugadas com ações efetivas de implantação de nossa legislação ambiental [por sinal, uma das melhores do mundo no papel], tem sido a marca da incompetência de todos os governos [em todas as esferas] nos últimos tempos.
Pelo que estamos acompanhando por intermédio da mídia, os debates estão centralizados não em combater os desmandos ambientais, mas em como fazer concessões para anistiar os infratores em função de argumentos como o aumento da produção agropecuária brasileira. Esta é a tônica dos principais discursos no Congresso Nacional. Presenciamos um enorme esforço por parte da bancada ruralista [e seus apoiadores] em construir um discurso de defesa dos infratores ambientais, escondido atrás da argumentação de que “esses senhores” [infratores] sempre contribuíram para o fortalecimento da economia e da produção agrícola brasileira. Tentam, com todos os argumentos possíveis [e até impossíveis] transformar criminosos em heróis nacionais, aliás, esta estratégia sempre fez parte da história oficial do Brasil.
Ora! Caros leitores! Observando a maioria das potências capitalistas atuais observamos que o aumento da produção agrícola não se mede pelo aumento da quantidade de terras nas mãos dos fazendeiros e grandes grupos e/ou corporações multi/transnacionais. Não se mede a produção agrícola com concentração de terras nas mãos de poucos, pelo tamanho do latifúndio. Ao contrário, na imensa maioria dos países ditos “desenvolvidos” não existem grandes propriedades e estabelecimentos rurais, mas sim pequenas propriedades altamente produtivas. A eficácia da produtividade agrícola se consegue com tecnologias apropriadas utilizadas, verticalmente, em pequenas propriedades e não com o aumento exponencial da quantidade de terras, ou seja, com a abertura interminável de novas fronteiras agrícolas, exterminando com os principais recursos naturais dos principais biomas do país. Haja vista que estudos apontam que investidores estrangeiros da especulação imobiliária são “donos” de quase 1/5 [um quinto] da nossa Amazônia.
Na verdade, os principais discursos em prol do meio ambiente no Brasil trazem em suas entrelinhas interesses particulares ou de estratégias protecionistas a grupos multi/transnacionais ou de grandes latifundiários que usam a terra apenas com fins especulativos. Não dá para entender um país com tamanha quantidade de terras férteis, de dimensões continentais, com parte significativa de sua população em condições precárias de sobrevivência, abaixo da linha de pobreza e passando fome. Portanto, as discussões em torno das temáticas ambientais deveriam se orientar em torno da aplicação efetiva de nossa legislação ambiental, aliada a uma política fundiária justa e efetiva, embasada em pequenas propriedades rurais e não em políticas protecionistas aos latifundiários e especuladores, que são os verdadeiros responsáveis pelos desmandos contra o meio ambiente no país. Aliás, esta discussão que aflorou a partir do novo Código Florestal só serviu para mostrar que o Estado brasileiro e os grandes grupos econômicos não têm qualquer interesse pelo tal “desenvolvimento sustentável” e que este discurso não passa de uma grande falácia. As grandes temáticas ambientais, no fim das contas, são utilizadas em conformidade com os interesses dos grandes infratores ambientais no Brasil, seja no campo, seja na indústria.            


* Escritor. Geógrafo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre e doutorando em Educação também pela UFU. Professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE). machado04fonseca@gmail.com

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Num reino não muito distante

Henrique IV: o Rei louco
Valter machado da Fonseca*
“[...] Um Rei mal coroado não queria o amor em seu reinado
Pois sabia não ia ser amado
” [Geraldo Azevedo]

Conta a lenda, que num reino não muito distante havia “um rei mal coroado” que não queria o amor em seu reinado. O rei, assim que tomou posse do trono resolveu mostrar sua verdadeira face. Era um rei que não se importava com os problemas de seu povo, agia, de fato, mais como um ditador do que como um monarca amado pelos seus súditos.
O tal reino era habitado por uma população de bem que depositara grandes esperanças em seu rei, até que ele resolveu mostrar quem de fato era. Conta a lenda que o tal rei era um homem cruel, que achava que sabia de tudo, que entendia de todos os assuntos de seu reino. Mas, na verdade sua prepotência era tamanha que ele, obcecado pelo poder que o próprio povo lhe concedera, resolveu governar em nome de suas verdades, ao invés dos desejos de seu povo. Obcecado pela cobiça, ele se cercou de pessoas incompetentes para os cargos para os quais ele as designara.
Conta a lenda que o rei, que nada entendia de educação, resolveu tomar medidas sem ao menos consultar os membros de seu reino [que entendiam do assunto], tomando para si os destinos da educação do seu povo, principalmente das crianças mais pobres do reino. De início, ele trocou todos os livros feitos para as crianças humildes e pobres, que tratavam das coisas que interessavam a elas, por livros feitos para as crianças ricas e abastadas filhas dos nobres de seu reinado. Ele obrigou a todos os professores das escolas de seu reino a usarem os livros dos nobres, não dando aos professores, sequer a chance de debaterem o assunto. Com esta atitude, ele pagou uma grande fortuna à nobreza dona da escola dos ricos, com o próprio dinheiro arrecadado com os impostos dos seus súditos. E as crianças humildes, pobres crianças!!! Tiveram que abandonar seus modos de estudar para acatar as ordens do rei: tinham que estudar nos livros da nobreza sem, sequer, o direito de questionar.
Conta a lenda que o rei mandou fazer uma festa para comemorar sua nova maneira de educar as crianças pobres. Conta a lenda que uma professora de uma escola pobre que havia conseguido excelentes resultados com seus alunos, utilizando os livros antigos, não quis ir à festa, pois, no fundo de seu coração discordava dos métodos utilizados por sua majestade. O rei, furioso por ver que nem todos caíam em seu canto de sereia, mandou expulsar de seu cargo a pobre professora. O pior de tudo, é que o conselho de “sábios” [os que faziam as leis do reinado] não disse uma palavra sequer sobre os desmandos do cruel monarca. Aceitaram toda aquela arbitrariedade de cabeça baixa, pois, afinal também estavam do lado de sua majestade, contra o povo e contra as crianças.
Caro leitor! Vejam vocês!!! Um rei que é capaz de agir desta forma contra seus súditos, contra as crianças humildes do reino, será capaz de qualquer coisa. Um rei que brinca com a educação para satisfazer suas próprias ambições e as ambições dos duques e barões donos das escolas ricas deve ser capaz de coisas realmente monstruosas. Um rei que fala de democracia, mas cuja prática se aproxima das piores ditaduras não serve para governar nem uma pequena província, muito menos um reinado habitado por gente de bem. Prezado leitor, fique atento!!! Esta lenda pode acontecer em sua cidade! Qualquer semelhança com os fatos contidos nesta fábula poderá não se tratar de mera coincidência, mas poderá ser a mais pura e cruel realidade. Por isso, meu caro leitor, fique atento e tome muito cuidado, pois, muito perto de você poderá haver um rei tão monstruoso e cruel como esse.            


* Escritor. Geógrafo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre e doutorando em Educação também pela UFU. Professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE). machado04fonseca@gmail.com



sábado, 7 de maio de 2011

Aconteceu de 04 a 06 de maio de 2011 a regional da SBPC em Catalão/GO


Prof Valter Machado da Fonseca

Prof. Valter Machado da Fonseca durante o minicurso
Garotas da SBPC no trabalho de credenciamento dos participantes 

Prof. Valter Machado da Fonseca
Foi realizada na semana de 04 a 06 de maio de 2011 a Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na cidade goiana de Catalão. Esta reunião teve o caráter preparatório para grande Reunião Nacional da SBPC que ocorrerá em meados de julho na cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás. Sob o tema geral “Ciência e Tecnologia para a Agricultura, a Pecuária e a Mineração do século XXI”, a Reunião Regional de Catalão contou com, aproximadamente, 2600 participantes e foi considerada um sucesso pelos organizadores do evento. O evento científico foi marcado por debates sobre o Cerrado, mesas redondas sobre diversos assuntos ligados à temática, Conferências e minicursos, todos os debates relacionados à discussão que envolve o estudo sobre o atual estágio de degradação e conservação do Cerrado brasileiro.
O Prof. Valter Machado da Fonseca, Geógrafo, mestre e doutorando em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia, ministrou o minicurso “O Cerrado brasileiro antes e depois da fronteira agrícola”.  O minicurso fez uma relevante discussão que envolveu os aspectos técnicos, econômicos, culturais, sociais e ambientais relacionados ao Cerrado brasileiro. O Professor Valter Fonseca fez um recorte histórico que abordou aspectos relativos às formas de ocupação do Cerrado pré-histórico, passando por aspectos que caracterizou a ocupação recente deste importante bioma, até os dias atuais. O minicurso procurou enfatizar o debate transversal, numa visão contextualizada e crítica sobre o processo de ocupação do Cerrado brasileiro, bem como seu atual estágio de degradação e conservação. Ao final do minicurso, foram apresentadas e debatidas propostas visando à minimização dos impactos ambientais sobre o bioma e dos impactos culturais e sociais sobre a população cerradeira, em decorrência da ocupação desordenada deste importante ambiente.
O professor Valter Machado da Fonseca, que também é membro do NEEFICS, foi convidado a ministrar outro minicurso na Reunião Nacional da SBPC em Goiânia, em meados do mês de Julho. Ele acredita que o evento foi muito relevante e deu passos significativos para a implementação de propostas com vistas à minimização dos impactos sobre o Cerrado brasileiro.        

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Rosa Vermelha

A Rosa Vermelha



Valter Machado da Fonseca

Eu vi a semente no solo, vi água abundante;
Vi o solo rachando, a planta nascendo, crescendo...
Das folhas frágeis, do broto débil, delicado e sutil;
Desabrocha a rosa vermelha, da cor da centelha.
O mesmo fogo matreiro destrói a essência da vida;
A terra outrora fecunda, agora imunda, terra sofrida!

Senti o pé da criança que gerou a esperança;
Um futuro perfeito, do amor satisfeito.
Senti o olhar do felino espreitando o destino.
Senti o olfato do cão que afugenta o ladrão;
O olhar satisfeito do mesmo sujeito;
Que plantara a semente da rosa vermelha, da cor da centelha.

O mesmo solo fecundo, agora imundo, esconde a maldade;
O tempo esquecido, o planeta aquecido, a chama cortante;
A fumaça escura, que esconde o luar, apaga as estrelas;
Transformando a noite de aquarela, em apenas mais uma tela;
Vazia, nua, sem cores, difamando os amores, realçando os odores.
O lodo fétido, contaminado e desbotado, na chama da vela.

Hoje tudo é árido, desértico, insuportável.
O mesmo sol que aquecia a flor espalha o odor;
Da carne perdida, dos corpos putrefatos, sem vida...
O vento que acaricia a pele e afasta o calor;
Agora traz a tormenta, causa o terror, espalha a dor.
Da criança que gerou esperança, só resta o pavor.

A rosa vermelha bela e radiante... tão distante!
Só existe na memória, na lembrança constante, do eterno retirante.
A rosa vermelha, moderna, virou cogumelo;
De cor escura, espalha a loucura, a morte sofrida.
No solo onde vi a semente, apenas mais uma cova.
Inscrito na cruz, reluz a mensagem...
Aqui jaz a rosa vermelha, do tempo da terra “selvagem”.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chacina em Realengo: antiética, estética e autofagia

Valter Machado da Fonseca*
O país literalmente parou, horrorizado e boquiaberto com o “espetáculo” de horrores apresentado na Escola Municipal Tasso da Silveira em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro.  À primeira vista, a notícia teve uma repercussão estrondosa, como se fatos como este não fossem corriqueiros no Brasil. Como se, quase que cotidianamente, crianças não fossem assassinadas brutalmente em diversas cidades brasileiras, como se quase todos os dias, pessoas não fossem espancadas, freiras não fossem assassinadas por jagunços, indígenas não fossem incendiados vivos, se homossexuais não fossem espancados e/ou assassinados, como se prostitutas não fossem apedrejadas, como se mulheres não fossem estupradas ou violentadas todos os dias nas grandes cidades do país. Não! Caro (a) leitor (a)! A repercussão foi tão assustadora porque o sujeito [assassino] em questão resolveu agir “por atacado”, utilizando-se de crianças inocentes e em um local supostamente seguro [a escola]. Ele resolveu colocar a olho nu, de forma despida, todas as contradições de um sistema cambaleante e decadente.
Assim, a repercussão midiática foi relâmpago, surpreendentemente eficiente. Em poucos minutos a notícia já era manchete nos principais meios de comunicação mundiais. Aliás, a mídia tem uma parcela considerável de culpa em tragédias dessa envergadura. Quase sempre [para não dizer sempre] a mídia destaca casos de terrorismo por semanas e até meses a fio. Mostram todos os ângulos de um “homem-bomba” em ação, voltam para esses indivíduos seus holofotes mais potentes. Acabam por fazer com que esses sujeitos passem de reles assassinos a representantes de “grandes causas”. Na verdade, dão a eles aquilo que mais querem: seus minutos de poder e fama. A mídia, no fim das contas, faz a verdadeira apologia ao terror, em nome da informação isenta de intenções. Este amplo respaldo midiático acaba por encorajar outras pessoas que veem nesses assassinos seus representantes legítimos.
Nos dias subsequentes à matança de Realengo, temos assistido na esmagadora maioria dos canais de TV, diversas sessões de psicologia, psiquiatria e parapsicologia. Enfim, são sessões de psicoterapia coletivas presididas por psicólogos de plantão de todas as cores e matizes. Eles querem saber o que se passou na mente, na cabeça daquele assassino. É uma atitude absolutamente normal em um indivíduo desajustado mergulhado num contexto social marcado pela corrupção, pelas maracutaias, pelos esquemas de propina, pelos assassinos de colarinho branco, por esquemas de fraude. Afinal, o que diferem esses criminosos do maníaco de Realengo? O que esperar de um sujeito desajustado e mergulhado no meio da impunidade, da injustiça, do latrocínio. Querem achar culpados: já acusaram a escola, a população, a segurança pública, o Islã, dentre outros. Mas, em nenhum momento, apontaram o dedo na direção correta: o sistema que privilegia o consumo acima de qualquer outra coisa, que desumaniza o ser humano, que banaliza as relações humanas, que mede a educação por números e cifras e nunca pela qualidade, que premia os criminosos do colarinho branco e que, desgraçadamente, vive à custa da miséria, da doença e da decadência dos valores humanos.
É na ação social que o sujeito forma sua consciência. No caso do maníaco em questão sua consciência [se é que ele tem uma] é fruto de um contexto social marcado pela ética e pela estética da burguesia necrosada, deteriorada pelo câncer social. Alguns tentaram justificar o massacre de Realengo pelo bullying do qual foi vitima o maníaco. Mas, afinal o que é o bullying senão uma manifestação da ética burguesa em função de sua própria estética? Uma estética que nasce de padrões pré-estabelecidos pela burguesia, que convencionou para si mesma que o ser humano aceitável é branco, machista, louro, magro [de preferência malhado], que tem uma linguagem própria, que se dá bem com as garotas ou com os rapazes. Os que não se enquadram nestes padrões, ou seja, os feios, gordinhos, tímidos, que usam grossos óculos de lentes, negros, homossexuais, são o rejeito social. Este é o resultado da podridão da estética de uma sociedade burguesa carcomida pelo câncer social.
Caros leitores! Não adianta buscar respostas para a ação demoníaca do assassino de Realengo. Ele é fruto das contradições de um sistema cuja derme sangra em lepra. De um sistema necrosado, carcomido pelo câncer que gera tumores dos quais se expele a gosma do preconceito, da discriminação e da injustiça social. Ele é fruto de um sistema que come a si mesmo, um sistema autofágico por excelência.


* Escritor, Geógrafo pela Universidade Federal de Uberlândia, Mestre e doutorando em Educação também pela UFU.  machado04fonseca@gmail.com

sábado, 2 de abril de 2011

O pão nosso de cada dia (1)

Prof. Ms. Valter Machado da Fonseca*
Há dias atrás, o JM publicou um artigo de minha autoria intitulado “A mídia e o veneno que nos servem à mesa”, que fez muito sucesso. Prova disso é a quantidade de e-mails que recebi de diversas partes do país e até do exterior (Portugal, Argentina, Espanha). O objetivo desse artigo não é discutir o sucesso de meu texto. Citei o fato, pois ele nos remete a algumas importantes reflexões. Os e-mails recebidos mostram a relevância do tema “saúde”. “obesidade”, “alimentação saudável”. Demonstram ainda a preocupação de parte da população [que não aparece nas estatísticas oficiais] em relação à saúde. Então, resolvi dar continuidade às reflexões sobre esta relevante temática. Enviarei ao JM uma série alternada de contribuições sobre este assunto.
Hoje tratarei de um assunto bastante polêmico e que vem sendo, sistematicamente, discutido nas grandes rodas de pesquisas científicas das áreas de saúde humana: a transgenia ou melhoramento e/ou clonagem de espécies vegetais e animais. Nas últimas décadas, o avanço das técnicas de engenharia genética colocou em foco a questão da transgenia, isto é, a produção de organismos geneticamente modificados (OGM). Um OGM é um ser vivo obtido ao introduzir-se, em uma espécie biológica, de forma estável e hereditária, um gene mediante mecanismos de DNA recombinante, o que implica no fato de que, pela primeira vez na história, a transmutação de genes permitiu romper a barreira entre as espécies.
O Conselho de Informação sobre Biotecnologia – CIB (2004) informou que, em 1994, o primeiro transgênico chegou às prateleiras dos supermercados: um tomate, desenvolvido para ter mais sabor do que o comum e suportar maior tempo de armazenamento. No ano seguinte, a primeira variedade de soja transgênica foi introduzida no mercado. Estas evidências mostram somente a “ponta do iceberg”, hoje, além do tomate e da soja, diversas espécies geneticamente modificada têm sido colocadas nos varejões e prateleiras dos supermercados à disposição dos consumidores. Grande variedade de produtos “vistosos e bonitos” é colocada, diariamente, à nossa disposição no mercado, a exemplo de hortaliças, legumes, grãos e carnes de todos os tipos. Agora, além de nos preocuparmos com os herbicidas/pesticidas lançados sobre os alimentos e depois infiltrados no solo contaminando-o juntamente com as águas, temos que nos preocupar ainda com aquilo que a gente não vê, pois ocorre em nível de DNA: a transgenia de alimentos.
E, por trás de todas essas experiências, da qual as cobaias somos nós mesmos, existem os grandes grupos multi/transnacionais que ficam, cada dia mais, bilionários à custa dessas experiências com a saúde humana. Eles controlam todo o processo produtivo da indústria agronômica, farmacêutica e de alimentos. Os pequenos produtores ficam à sua mercê, pois dependem deles para a aquisição de sementes [já que não adianta selecionar os grãos, pois eles não têm mais potencial germinativo], aquisição de insumos, pesticida, herbicidas, dentre outros agrotóxicos.
Isto impede que os pequenos produtores pratiquem a agricultura de subsistência e/ou familiar, devido ao grande cartel oligopolista, formado pelos gigantes genéticos, os quais estipulam preços incompatíveis com as práticas dos pequenos produtores, uma vez que esses preços são estabelecidos para atender a realidade da monocultura voltada para a exportação. Enquanto o homem brinca com pesquisas sérias, em troca do lucro, nós assistimos à volta de doenças antigas e o surgimento de novas. Assim, vamos deixar para os nossos filhos e netos um monte de doenças, alimentos artificiais e pragas, decorrentes da ganância humana, muitas vezes chamada, equivocadamente, de “progresso e desenvolvimento”. Neste sentido, alguns poucos grupos ganham fortunas à custa do sofrimento, miséria e morte de grande parcela da população, principalmente os mais humildes.


* Escritor, Técnico em Mineração, graduado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia, Mestre e doutorando em Educação também pela UFU. Pesquisador da área de “Alterações climáticas” Professor da Universidade de Uberaba – UNIUBE. machado04fonseca@gmail.com

quarta-feira, 30 de março de 2011

Será que só eu vi o que aconteceu no Japão?


Prof. Ms. Valter Machado da Fonseca*
No ano de 2010 o mundo, literalmente, foi balançado pelo terremoto no Haiti. Caiu a mascara que muitas nações queriam ocultar: com aquele terremoto, a natureza sabiamente mostrou a todo o planeta a nudez horrenda da desigualdade social que marca a sociedade moderna em estado de total necrose. A natureza mostrou os horrores de uma população que clamava por socorro: uma população morta de fome, onde as mães tentavam enganar a fome das crianças com tortilhas de barro.
Ainda em 2010, a natureza voltou a se manifestar no Chile, com outro grande evento sísmico. Centenas de pessoas pereceram vitimadas pelo terremoto chileno. A natureza resolveu mostrar toda sua ira neste ano de 2010: foram grandes catástrofes por diversas regiões do planeta, como a maior nevasca da história da França, a grande nevasca de Nova York, os grandes tornados nos EUA, enchentes violentíssimas na China, na América Central, na Ásia, no Brasil, além de furacões, maremotos, chuvas de granizo, grandes secas em regiões que são tipicamente úmidas. Enfim, a natureza está mostrando indícios de alguma coisa, está nos dizendo que alguma coisa vai muito mal.
Ao assistirmos aos noticiários vemos a mídia tratar essas questões como perfeitamente normais. As notícias são transmitidas com a maior naturalidade, como se nada estivesse ocorrendo. Como se o fato de crianças [seres humanos] comerem barro, para saciar a fome, fosse algo tipicamente normal. O que tem sido feito pelo povo haitiano, agora que os holofotes mudaram seu foco?
A natureza mostrou que é altamente democrática: primeiro ela voltou sua ira contra a população paupérrima do Haiti, depois ao povo chileno. Agora, contra o povo mais desenvolvido, tecnologicamente falando: o povo japonês. O terremoto no território japonês foi um evento natural, em decorrência da acomodação de placas tectônicas. As vítimas deste evento sísmico já ultrapassam 11.000. Este evento de grande magnitude [o maior ocorrido no Japão] deslocou o eixo da Terra em alguns graus [o que equivale a alguns centímetros]. Parece uma coisa irrisória, mas, na verdade isto é o indício mais forte e mais significativo que o planeta nos fornece, o que significa que a natureza está dizendo que algo grandioso está para acontecer neste período geológico.
Mas, o que considero mais grave, em que pese o sofrimento de todas as famílias vitimadas pelo evento sísmico no Japão, foi o que ocorreu depois dele: o abalo das estruturas do grande complexo nuclear japonês, deixando totalmente exposto o núcleo de plutônio do reator 3 [três]. É bom ressaltar que o plutônio é um elemento altamente radioativo. Ironicamente, foi o mesmo utilizado pelos EUA em suas bombas atômicas, lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, na 2ª Guerra Mundial. O plutônio exposto está emitindo partículas radioativas para a atmosfera e para os corpos d’água, que já estão contaminados em mais de 2000 vezes acima dos índices aceitáveis. Além disso, as partículas radioativas na corrente atmosférica já atravessam o Oceano Pacífico em direção à Europa.
E, mais uma vez, a mídia trata a questão com inigualável naturalidade: talvez seja para não expor as contradições que movem o atual modelo econômico de produção, demonstrando que o motor do sistema capitalista está em total estágio de putrefação. Afinal, este sistema precisa da desgraça humana para sobreviver. Com os terremotos, a natureza demonstra o que pode fazer com a humanidade. Ela não precisa da raça humana para continuar existindo, muito pelo contrário, talvez ela viva melhor sem a espécie humana. E, finalmente, neste terremoto, o homem mostrou, por intermédio da imprudência nuclear, o que ele pode fazer contra si mesmo.  


* Escritor. Técnico em Mineração, Geógrafo pela UFU, Mestre e doutorando em Educação também pela UFU. Pesquisador da área de “Alterações climáticas”. Professor da Universidade de Uberaba – UNIUBE. machado04fonseca@gmail.com