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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Grande reservatório de água é descoberto sob o gelo da Groenlândia

Foto: Earth Observatory/NASA (2013) 



Por NTV
Um grande reservatório de água, equivalente em área ao território da Irlanda, foi descoberto debaixo da cobertura de gelo da Groenlândia e pode fornecer respostas para um dos grandes enigmas das mudanças climáticas. Em 2011, cientistas americanos cruzaram a cobertura de gelo do sul da Groenlândia em uma expedição para coletar testemunhos de gelo, uma referência da queda anual de neve. Eles ficaram assombrados ao perfurar uma camada de neve comprimida denominada "firn" e, ao invés de uma esponja congelada a 10 metros de profundidade, como era esperado, eles encontraram água líquida e grânulos de gelo.
Os cientistas, então, fizeram outra perfuração a alguns quilômetros dali e obtiveram o mesmo resultado ao atingir a camada de neve "firn" a 25 metros. Em busca de uma resposta para esta água misteriosa, um avião da Nasa equipado com um radar de mapeamento de terreno foi levado para sobrevoar a região, assim como um radar de penetração no solo, puxado por um snowmobile (trenó motorizado). O radar retornou reflexos brilhantes, indicando a presença de um grande reservatório de água sob o gelo. Estendendo-se para o flanco sul da Groenlândia, a água escondida cobre uma área de 70 mil quilômetros quadrados. É encontrada em profundidades sob o gelo que variam de 5 a 50 metros.

A maior raspadinha do mundo?

Segundo artigo publicado no domingo na revista "Nature Geoscience", acredita-se que o reservatório contenha neve derretida no verão anterior. Ele funciona de forma similar a um aquífero subterrâneo, que é uma rocha esponjosa que armazena água em seus espaços. Neste caso, os espaços de ar na neve "firn" são ocupados por água, resultando em algo similar ao gelo batido de uma sobremesa popular conhecida como raspadinha.
"O fato surpreendente é que o suco nesta neve nunca se congela, mesmo no escuro inverno da Groenlândia", afirmou Rick Forster, professor de geografia da Universidade de Utah, que chefiou a missão. "Grandes quantidades de neve caem na superfície posterior no verão e rapidamente isolam a água das temperaturas do ar abaixo do congelamento da parte superior, permitindo à água perdurar por todo o ano", continuou.

Mudanças climáticas

O reservatório secreto parece existir por algum tempo e não foi provocado pelo aquecimento global, acreditam os cientistas. Mas eles acrescentaram que poderia ajudar a compreender o destino da cobertura de gelo, uma questão chave da ciência climática. Uma poderosa placa de gelo com espessura de cerca de 1.500 metros, a Groenlândia sofre um degelo sem precedentes, à medida que o aquecimento global se acelera.
Em 2012, a cobertura de gelo perdeu um recorde de 150 quilômetros cúbicos em volume, transformando esta no maior contribuinte único para a elevação do nível do mar no mundo, afirmou Forster. Se a cobertura de gelo derreter totalmente, poderia fazer o nível do mar subir cerca de 7 metros. Este é um cenário catastrófico que a maioria dos cientistas descarta, mas, mesmo a perda de uma grande parte, ainda inundaria cidades costeiras vulneráveis. A descoberta do reservatório subglacial que dura todo o ano põe por terra todas as simulações de computador que tentaram estimar este movimento hídrico.
As simulações costumam ter água chegando aos rios, lagos e corpos hídricos subglaciais que eventualmente chegam para o mar ou correm para a cobertura de gelo através de fendas e acabam congelando. O próximo passo é determinar se o reservatório ajuda ou retarda a sobrevida da cobertura de gelo da Groenlândia.
"Ele pode conservar o fluxo de água de degelo e, assim, ajudaria a reduzir os efeitos das mudanças climáticas", disse Forster. "Mas também pode ter o efeito contrário, fornecendo lubrificação para as geleiras em movimento e exacerbando a velocidade do gelo e a quebra (do iceberg), aumentando a massa de degelo para o oceano em todo o mundo", concluiu.

sábado, 21 de dezembro de 2013

OS PROFESSORES NA VIRADA DO MILÊNIO: DO EXCESSO DOS DISCURSOS À POBREZA DAS PRÁTICAS


Por António Nóvoa  (Universidade de Lisboa)
 
RESUMO
Escrito na sequência de uma Conferência proferida na Universidade de São Paulo, este artigo procura analisar a “realidade discursiva” que marca grande parte dos textos sobre educação neste final de século. A chave de leitura do artigo é a lógica excesso-pobreza, aplicada ao exame da situação dos professores: i) do excesso da retórica política e dos mass-media à pobreza das políticas educativas; ii) o excesso das linguagens dos especialistas internacionais à pobreza dos programas de formação de professores; iii) do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas; iv) do excesso das “vozes” dos professores à pobreza das práticas associativas docentes. Não recusando um pensamento “utópico”, o autor critica as análises “prospectivas” que revelam um “excesso de futuro” que é, ao mesmo tempo, um “défice de presente”.
RESUME
Rédigé à la suite d’une Conférence donnée à l’Université de São Paulo, cet article cherche à analyser la “réalité discursive” qui marque la plupart des textes sur l’éducation dans cette fin de siècle. La clef de lecture de l’article est le couple excès-pauvreté, appliqué à l’examen de la situation des enseignants: i) de l’excès de la rhétorique politique et des mass-media à la pauvreté des politiques éducatives; ii) de l’excès des langages des experts internationaux à la pauvreté des programmes de formation des enseignants; iii) de l’excès du discours scientifique-éducationnel à la pauvreté des pratiques pédagogiques; iv) de l’excès des “voix” des enseignants à la pauvreté des pratiques associatives des enseignants. Ne refusant pas une pensée “utopique”, l’auteur critique les analyses “prospectives” qui sont porteuses d’un “excès d’avenir” qui est, en même temps, un “déficit de présent”.
Introdução
Nos dias de hoje, há uma retórica cada vez mais abundante sobre o papel fundamental que os professores serão chamados a desempenhar na construção da “sociedade do futuro”. Um pouco por todo o lado, políticos e intelectuais juntam as suas vozes clamando pela dignificação dos professores, pela valorização da profissão docente, por uma maior autonomia profissional, por uma melhor imagem social, etc.
Nos programas de acção política ou nos discursos reformadores, nos documentos dos “especialistas” da União Europeia ou na literatura produzida pelos investigadores, reencontramos sempre as mesmas palavras, repetidas uma e outra vez, sobre a importância dos professores nos “desafios do futuro”. Ou porque lhes cabe formar os recursos humanos necessários ao desenvolvimento económico, ou porque lhes compete formar as gerações do século XXI, ou porque devem preparar os jovens para a sociedade da informação e da globalização, ou por qualquer outra razão, os professores voltam a estar no centro das preocupações políticas e sociais.
Recentemente, várias organizações internacionais têm falado da nova “centralidade” dos professores, referindo-se mesmo à necessidade de “trazer outra vez os professores para o retrato”. O meu artigo procura analisar esta realidade discursiva, questionando as suas razões e contradições. O subtítulo desvenda a linha central da argumentação: Do excesso dos discursos à pobreza das práticas.
Não pretendo, obviamente, sugerir uma oposição entre “discursos” e “práticas”, como se estivéssemos perante dois mundos distintos. Bem pelo contrário. Quero demonstrar de que forma os “discursos” induzem comportamentos e prescrevem atitudes “razoáveis” e “correctas” (e vice-versa). Mas quero mostrar, também, o modo como eles constroem uma ideia de profissão docente que, muitas vezes, não corresponde à intencionalidade declarada. A chave de leitura do artigo é o par excesso-pobreza, aplicado à análise da situação dos professores:
Do excesso da retórica política e dos mass-media à pobreza das políticas educativas.
Do excesso das linguagens dos especialistas internacionais à pobreza dos programas de formação de professores.
Do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas.
Do excesso das “vozes” dos professores à pobreza das práticas associativas docentes.
DO EXCESSO DA RETÓRICA POLÍTICA E DOS MASS-MEDIA
À POBREZA DAS POLÍTICAS EDUCATIVAS
Em sociedades marcadas por crises de legitimidade política e por défices de participação, surge sempre uma dupla tendência: por um lado, para pregar o civismo, o que compensaria a falta de uma autêntica vivência democrática; por outro lado, para evitar o presente, projectando todas as expectativas na “sociedade do futuro”.
Para pregar o civismo ou para imaginar o futuro, nada melhor do que os professores. É para eles que se viram as atenções dos políticos e da opinião pública quando não encontram outras respostas para os problemas. A inflação retórica tem um efeito desresponsabilizador: o verbo substitui a acção e conforta-nos no sentimento de que estamos a tentar fazer alguma coisa...
O excesso dos discursos esconde a pobreza das práticas políticas. Neste fim de século, não se vêm surgir propostas coerentes sobre a profissão docente. Bem pelo contrário. As ambiguidades são permanentes.
Por um lado, os professores são olhados com desconfiança, acusados de serem profissionais medíocres e de terem uma formação deficiente; por outro lado, são bombardeados com uma retórica cada vez mais abundante que os considera elementos essenciais para a melhoria da qualidade do ensino e para o progresso social e cultural.
Umas vezes, as respostas procuram-se num “liberalismo” levado ao extremo: vejam-se, por exemplo, as recentes medidas decretadas pelo governo de Tony Blair concedendo a empresas privadas a gestão dos professores substitutos nas escolas públicas inglesas. Outras vezes, assistimos ao recurso a um “autoritarismo” inusitado: vejam-se, por exemplo, certas medidas de controlo estatal ou de avaliação dos desempenhos profissionais.
No caso dos professores, o liberalismo e o autoritarismo surgem frequentemente associados, configurando políticas desgarradas e contraditórias. Como escreve Hans Vonk, “nas sociedades actuais, os burocratas definem vários problemas sociais e educacionais numa perspectiva gerencial e não numa perspectiva de conteúdo” (1991, p. 134). O excesso dos discursos faz lembrar o final do século XIX, quando os professores eram investidos de todos os poderes (até o de ganhar guerras). Mas nessa época havia um consenso social em torno da missão dos professores. Hoje, não há. E o excesso dos discursos tende, apenas, a esconder a pobreza das políticas.
DO EXCESSO DAS LINGUAGENS DOS ESPECIALISTAS INTERNACIONAIS
À POBREZA DOS PROGRAMAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES
Nos últimos anos, os especialistas internacionais têm estado particularmente activos no aconselhamento e consultoria na área da educação. As grandes organizações (Unesco, OCDE, União Europeia, etc.) parecem ter redescoberto as análises prospectivas, anunciando nos seus documentos a “sociedade educativa”, a “sociedade do conhecimento”, a “sociedade que aprende” ou a “sociedade cognitiva” do próximo século.
É nestes textos que se cunha o conceito de centralidade dos professores. No relatório da OCDE, Education Policy Analysis (1998), em apenas três páginas utilizam-se expressões como: “trazer outra vez os professores para o retrato”; “colocar os professores no centro dos processos sociais e económicos”; “os professores são os profissionais mais relevantes na construção da sociedade do futuro”; “os professores têm de voltar para o centro das estratégias culturais”; “os professores estão no coração das mudanças”. Tudo isto para concluir que “a centralidade dos professores nem sempre é devidamente reconhecida no plano político”.
Um dos domínios ao qual os especialistas internacionais dedicam mais atenção é a formação inicial e continuada de professores. As medidas propostas insistem nos sistemas de acreditação (no caso da formação inicial) e nas lógicas de avaliação (no caso da formação continuada), arrastando uma concepção escolarizada da formação de professores. Consolida-se um “mercado da formação”, ao mesmo tempo que se vai perdendo o sentido da reflexão experiencial e da partilha de saberes profissionais.
Nos Estados Unidos, um dos grupos que mais tem influenciado as políticas educativas nas últimas décadas, o Holmes Group, escreve na abertura do seu relatório Tomorrow’s Schools of Education: “Muitas pessoas e instituições dedicam-se à formação de professores, apenas e unicamente por se tratar de um mercado rentável. A formação de professores e de educadores é um grande negócio numa nação que emprega mais de três milhões de educadores. Os dólares cintilam nos olhos daqueles que andam à procura de boas oportunidades de mercado” (1995, p. 1).
Na Europa, os 4 milhões de professores constituem um “mercado” altamente cobiçado. Não espanta, por isso, que a coberto dos mais diversos argumentos (racionalização, eficácia, flexibilidade, excelência, etc.) se esteja, simultaneamente, a desmantelar as escolas superiores e universitárias de formação de professores e a tentar colocar sob “gestão privada” a oferta de formação dos centros de professores. Num e noutro caso, as grandes palavras servem para ocultar interesses concretos. Ainda há pouco tempo, o ministro da Educação Nacional do governo socialista francês afirmava que era necessário “instilar no sistema de ensino o espírito de empresa e de inovação”, considerando que a educação “será o grande mercado do século XXI”.
A luta por este “mercado” tem trazido para a formação de professores um conjunto de instituições e de grupos científicos, que nunca tinham demonstrado grande interesse por este campo. Infelizmente, os benefícios desta aproximação não são muito visíveis. E o resultado é a pobreza actual da maioria dos programas de formação de professores nos países europeus.
DO EXCESSO DO DISCURSO CIENTÍFICO/EDUCACIONAL
À POBREZA DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
Uma das realidades mais importantes das duas últimas décadas é o desenvolvimento extraordinário do campo universitário da pedagogia e/ou das ciências da educação. Hoje em dia, há milhares de investigadores nesta área, que produzem uma quantidade impressionante de textos, documentos, pesquisas, revistas, congressos, cursos, etc.
Em grande parte, esta comunidade científico-educacional alimenta-se dos professores e legitima-se através de uma reflexão sobre eles. Deste modo, não espanta que também os pedagogos sejam excessivos nas referências aos professores, pois esta é a melhor maneira de valorizarem o seu próprio trabalho. A consequência é uma recorrente “responsabilização” dos professores pelas “resistências” que opõem à razão científica tal como lhes é servida pelos investigadores.
A profissionalização dos professores está dependente da possibilidade de construir um saber pedagógico que não seja puramente instrumental. Por isso, é natural que os momentos-fortes de produção de um discurso científico em educação sejam, também, momentos-fortes de afirmação profissional dos professores. Todavia, estes momentos contêm igualmente os germes de uma desvalorização da profissão, uma vez que provocam a deslegitimação dos professores enquanto produtores de saberes e investem novos grupos de especialistas que se assumem como “autoridades científicas” no campo educativo. O entendimento deste paradoxo parece-me essencial para compreender alguns dos dilemas actuais da profissão docente.
É verdade que existe, no espaço universitário, uma retórica de “inovação”, de “mudança”, de “professor reflexivo”, de “investigação-acção”, etc.; mas a Universidade é uma instituição conservadora, e acaba sempre por reproduzir dicotomias como teoria/prática, conhecimento/acção, etc. A ligação da Universidade ao terreno (curiosa metáfora!) leva a que os investigadores fiquem a saber o que os professores sabem, e não conduz a que os professores fiquem a saber melhor aquilo que já sabem.
A estratégia de desapossar os professores dos seus saberes serve objectivos de desenvolvimento da carreira dos universitários, mesmo que se legitime com o argumento de que serve para o desenvolvimento profissional dos professores. Como desabafava um dos mais prestigiados professores portugueses dirigindo-se a uma plateia de universitários na área das Ciências da Educação: “Vocês domesticaram-nos! Não temos mais espaço, nem legitimidade, para lançar dinâmicas pedagógicas novas”.
Não deixa de ser estranho que, numa época em que tanto se fala de “autonomia profissional” ou de “professores reflexivos”, se assista a um desaparecimento dos movimentos pedagógicos, no sentido que este termo adquiriu na primeira metade do século XX, isto é, colectivos de professores que se organizam em torno de princípios educativos ou de propostas de acção, da difusão de métodos de ensino ou da defesa de determinados ideais.
A pobreza actual das práticas pedagógicas, fechadas numa concepção curricular rígida e pautadas pelo ritmo de livros e materiais escolares concebidos por grandes empresas, é a outra face do excesso do discurso científico-educacional, tal como ele se produz nas comunidades académicas e nas instituições de ensino superior.
 
DO EXCESSO DAS “VOZES” DOS PROFESSORES
À POBREZA DAS PRÁTICAS ASSOCIATIVAS DOCENTES
Finalmente, é útil chamar a atenção para o excesso das “vozes” dos professores. Face a situações de dificuldade e de desvalorização social e profissional, eles deixam-se tentar pelo “sobre-dimensionamento” das suas missões, apropriando-se de alguns dos discursos anteriores e transformando-os em “vozes” próprias. Assumem, assim, responsabilidades desmedidas, ambição que se vira frequentemente contra eles.
É evidente que nenhum grupo profissional pode ser indiferente à sua imagem pública. E esta estratégia procura valorizar socialmente o seu papel. Mas ela é particularmente perigosa e tem constituído um factor importante do mal-estar docente. A escola e os professores não podem colmatar a ausência de outras instâncias sociais e familiares no processo de educar as gerações mais novas. Ninguém pode carregar aos ombros missões tão vastas como aquelas que são cometidas aos professores e que eles próprios, por vezes, se atribuem.
Curiosamente, é neste tempo de tantas ambições que se tem acentuado uma maior dependência dos professores face aos poderes públicos, às entidades privadas e às instituições universitárias. E que se tem notado uma grande dificuldade de consolidar práticas de partilha profissional e de colaboração inter-pares. É verdade que há sinais de revitalização do sindicalismo docente, mas este facto não compensa a inexistência de uma colegialidade que não se esgota nos modelos sindicais tradicionais.
Ao olharmos para a história, verificamos que nunca a fragilidade associativa dos professores foi tão grande, o que não deixa de ser preocupante. Ora, sem um reforço das dimensões colectivas e colegiais no seio do professorado, não vale a pena levantar a voz (as “vozes”), pois não é por falarmos mais alto que temos mais razão ou que defendemos melhor os nossos interesses.
Tradicionalmente, os professores oscilaram entre um extremo “individualismo” na acção pedagógica e modelos sindicais típicos de “funcionários do Estado”. São, nos dias de hoje, formas obsoletas de encarar a profissão. O empobrecimento das práticas associativas tem consequências muito negativas para a profissão docente. É urgente, por isso, descobrir novos sentidos para a ideia de colectivo profissional. É preciso inscrever rotinas de funcionamento, modos de decisão e práticas pedagógicas que apelem à co-responsabilização e à partilha entre colegas. É fundamental encontrar espaços de debate, de planificação e de análise, que acentuem a troca e a colaboração entre os professores.
EM JEITO DE CONCLUSÃO PROVISÓRIA:
POLÍTICAS, FORMAÇÃO, PRÁTICAS, ASSOCIATIVISMO
Seria fácil identificar outros excessos no modo de pensar os professores: por exemplo, a atitude dos pais exigindo que os professores assegurem aquilo de que eles próprios já se demitiram ou o comportamento dos empresários reclamando que os alunos desenvolvam competências que mais tarde não valorizam. Mas os excessos mencionados são suficientes para sustentar a minha recusa de um pensamento que se projecta num “excesso do futuro” como forma de justificar a “pobreza do presente”. Como já se escreveu, não é por avançarmos os relógios que o futuro chega mais cedo (Koselleck, 1979).
Aparentemente, estou em desacordo com Zaki Laïdi quando ele denuncia a “tirania da urgência”: “Exigimos do presente o que esperávamos do passado. A urgência não nega o tempo. Ela sobrecarrega-o com exigências inscritas apenas na imediatez. (...) É por isso que, na ausência de um pensamento sobre o futuro, a urgência contribui para o destruir. A sua pretensa neutralidade temporal é totalmente ilusória, porque toda a preferência implica uma escolha e toda a preferência excessiva pelo presente conduz necessariamente a opções excessivas contra o futuro” (1999, p. 27). Mas este desacordo é aparente. Ambos recusamos um presente e um futuro como “fugas” ou “refúgios”.
Eu sei que a reflexão prospectiva foi, num passado não muito distante, a manifestação de um pensamento utópico, de uma vontade de mudar as coisas da educação. Mas hoje trata-se, na maior parte dos casos, de um mero jogo nominalista, como se não houvesse outra mudança para além da alteração dos nomes. São exercícios “técnicos”, esvaziados de uma ideia de futuro inscrita numa relação ao tempo histórico e social.


sábado, 14 de dezembro de 2013

A saga dos camponeses no Brasil

Foto: Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca (2013)                        Fonte: Arquivo pessoal Prof. Valter Fonseca


Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca
O desenvolvimento da sociedade capitalista, com o surgimento das tecnologias do campo, promoveu uma revirada espetacular nas formas e técnicas de produção agrícola, nas relações do homem com a terra e nas relações sociais no campo brasileiro. Por um lado, ela concentrou ainda mais as riquezas nas mãos dos grandes grupos e conglomerados agroindustriais e, por outro lado, aprofundou ainda mais os processos de desigualdade social e exclusão socioespacial no campo brasileiro.
Para justificar o parágrafo acima nos valemos do trabalho de (FERNANDES, 1999, p.28):

O campo brasileiro passou por profunda modernização, em alguns setores da agricultura, onde o capitalismo fincou sua mais espetacular expansão nas últimas décadas. Esse processo gerou uma extraordinária migração rural, por meio da expulsão de 30 milhões de pessoas, entre 1960 -1980, sendo que 16 milhões migraram somente na década de 70. Esse processo de transformação da sociedade moderna durou pelo menos 300 anos na Inglaterra e 200 anos nos EUA. O impacto social foi a extrema concentração urbana, o desemprego e a violência. O impacto econômico foi a implantação do parque industrial brasileiro.  

Desta forma, o denominado processo de “modernização do campo” trouxe drásticas consequências para os pequenos produtores, camponeses, extrativistas e coletores que viviam da agricultura de subsistência e dos frutos do campo. As décadas de 1960/1980 elencadas por Fernandes foram exatamente aquelas em que o campo brasileiro serviu de gigantesco laboratório para os experimentos dos pacotes tecnológicos advindos da denominada “Revolução Verde”. Estes pacotes tecnológicos, além de provocarem um violento impacto sociocultural no campo brasileiro, foram ainda responsáveis pelo despejo de incontáveis toneladas de insumos, pesticidas e agrotóxicos nos solos e nas águas do campo brasileiro. Imaginem um contingente de 30 milhões de trabalhadores rurais sendo despejados nas periferias urbanas, num espaço de tempo de apenas 30 anos. Fernandes (1999) continua sua argumentação sobre os impactos no campo brasileiro:

As transformações recentes da agricultura possibilitaram a criação da combinação agroindustrial e do desenvolvimento do cooperativismo. Todavia, essa transformação privilegiou a agricultura capitalista em detrimento da agricultura familiar, que foi renegada, banida do modelo econômico adotado pelos governos militares, situação que permanece até hoje. A modernização da agricultura capitalista, contraditoriamente, aumentou a produtividade e o desemprego. Esse fato aumentou o número de trabalhadores sem-terra, que engrossaram os movimentos sociais na luta pela terra e pela reforma agrária. (Op. cit. p.28)

Assim, a desterritorialização das comunidades camponesas se deu em função da concentração da riqueza nas mãos dos grandes grupos econômicos que detêm as tecnologias que invadiram o espaço agrário. Os cultivos de importação e a maquinaria que invadiu o campo aumentaram proporcionalmente não somente a produtividade agrícola, mas também a desigualdade e exclusão sociais.
A expulsão do trabalhador do campo auxilia, sobremaneira, no aumento exponencial da violência, desemprego e fome nos centros urbanos. Então, os movimentos sociais no campo mostram que o desenvolvimento econômico passa necessariamente, por uma política fundiária que vise em primeiro lugar, ao atendimento das demandas do povo brasileiro e não os anseios das nações ditas de “Primeiro Mundo”. O desenvolvimento de uma nação passa, necessariamente, pela erradicação da pobreza, do analfabetismo, da fome e da miséria de sua população.   
Foi no enfrentamento de toda esta problemática que surgiram os movimentos sociais no campo, visando resolver os conflitos e contradições provocados pelo gigantesco deslocamento de milhões de trabalhadores da terra, despejados nas periferias urbanas. Assim, os movimentos sociais no campo brasileiro são fundamentais para a solução do atraso e dos equívocos de uma política fundiária que prima pela concentração de terras e de riquezas, deixando largos contingentes da população a mercê do descaso e do abismo incontornável da desigualdade social e da segregação socioespacial. O eixo dos movimentos sociais no campo, ao contrário do que muitos pensam, é a solução dos principais problemas do campo e das cidades, os quais, uma vez solucionados, darão um grande impulso no combate à desigualdade social e à violência urbana. Novamente recorremos aos estudos de Fernandes (2000) para validar nossas afirmações:

Para um país como o nosso, com muita terra e a possibilidade de desenvolvimento da agricultura familiar, de geração de renda, de emprego, não há como evitar essa condição, que é tão reivindicada pela população que vive e constrói essa luta. A construção de uma política que viabilize a reforma agrária e o desenvolvimento da agricultura familiar é urgente. É uma forma concreta de valorização da vida no campo. O Brasil precisa aperfeiçoar a modernização da agricultura, porque nem a indústria e nem a agroindústria vão oferecer trabalho para toda essa população. Esta é uma questão estrutural da própria lógica do capitalismo, que não conseguindo proletarizar a todos, recria os agricultores familiares, que antes foram desempregados, sem-terra, etc. (Op. Cit. p.29)

Assim, Fernandes (1999) aponta a necessidade dos movimentos sociais no campo. Eles são os canais legítimos de enfrentamento das principais problemáticas do campo, além de apontarem o caminho e proposições efetivas para a minimização dos impactos sociais não somente no campo, mas, sobretudo, nas periferias dos grandes centros urbanos do país.