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domingo, 22 de maio de 2016

Lazer: apenas um palpite

Foto: Parque Nacional da Serra da Canastra (MG).                                        Fonte: Arquivo pessoal (2013).



Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca
Trabalho e lazer são essenciais para a vida humana. O trabalho (como diria meu amigo Prof. Ricardo Antunes) é fundamental para a existência humana, é protoforma fundante das atividades humanas. Porém, devemos lutar sempre contra todas as formas de dominação e alienação agregados ao trabalho por este modelo econômico de produção. Assim, o trabalho deve nos dar prazer, devemos reconhecer a nós mesmos no produto de nossas atividades laborativas.
Por outro lado, o lazer, assim como o trabalho, é preponderante para a nossa existência. E o nosso Brasil é um país ímpar por excelência em matéria de opções fantásticas de lazer. Um país de dimensões continentais com paisagens exuberantes de tirar o fôlego. Então, eu me pergunto: Por que despejar milhares de dólares todos os anos em viagens para outros países do mundo, se não conhecemos nem mesmo nossas próprias belezas naturais? Não é que eu tenha alguma coisa contra as pessoas gastarem seus dólares em locais além fronteiras. O que deixo aqui é apenas um ponto de vista. Não dá para listar os pontos turísticos brasileiros, pois, eles são incontáveis. Mas, a pergunta que deixo no ar é por que os estrangeiros investem tanto em turismo em nosso país, ao passo que nós mesmos (a grande maioria) desconhecemos nossas belezas e recursos turísticos? Penso que vale a pena olharmos para o nosso próprio umbigo!

sábado, 14 de maio de 2016

Liberdade, liberdade...

Foto: Blog amagiadasetimaarte (2016)



Prof. Valter Machado da Fonseca*
Ora, a ganância criada pela própria ambição humana para manter intactos seus falsos domínios gerados pela sede de consumo faz o homem escravo de se mesmo. Este estado de coisas introjeta em sua própria mente a ânsia e o medo da perda de bens materiais que, no final das contas, nem o próprio proprietário sabe para que servem. Verificamos, com isso, a perda total da liberdade humana travestida no apego às coisas banais e artificiais. Com isso, os pobres mortais, habitantes da terra, perdem por completo a noção de felicidade e liberdade, substituindo-as pela noção de posse a coisas que os levam à própria solitária.
Diante disso, imagine se não existissem fronteiras, se pudéssemos andar livremente, sem nos preocuparmos com a insegurança, sem ficarmos presos a posses ilusórias, sem fantasmas nem falsos valores. Imagine se pudéssemos andar pelos campos, irmos a terras longínquas sem passaporte e não tivéssemos que ter permissão para atravessarmos as cercas. Afinal, para que servem as cercas? Para que servem os arames farpados? Para que servem os condomínios fechados, senão para nos escondermos de nós mesmos? Até quando o homem vai necessitar se defender de sua própria espécie? Qual a verdadeira lógica deste modelo de sociedade, do qual sobressaem o medo e a insegurança?
É importante que façamos esta reflexão. É preciso que olhemos para dentro de nós mesmos e descubramos a chave para abrir nossos próprios grilhões. É fundamental acharmos os instrumentos para derrubar nossas cercas internas, as quais nos impedem de ver o mundo das coisas e as coisas belas do mundo. É preciso, urgentemente, que achemos a chave que destrave a nossa essência, para que, a partir daí, possamos descobrir, de uma vez por todas, que a liberdade e a felicidade não podem ser trancafiadas dentro de um terreno cercado, que esses dois termos jamais combinarão com a opressão e com as cercas, que só servem para decretar a nossa própria prisão.  


* Escritor. Geógrafo, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-Doutor (PhD) em Educação do Campo e Agroecologia pela UFU.  Pesquisador e professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE). pesquisa.fonseca@gmail.com

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A cidade: lócus da disputa entre desiguais

Fonte: sempretops.com (2016)



Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca
A simples observação da cidade, num breve passeio, leva a indagações sobre os diversos tipos de forma, estilos e significações nela existentes. Não é necessário ser um exímio observador para notar as diferentes formas e contrastes presentes na arquitetura das cidades. Nas grandes e médias, estes contrastes são mais gritantes, mas também nas pequenas podem-se observar estas evidências.
Nas regiões centrais, destacam-se um amontoado de edifícios, na sua maioria verticalizados, os quais parecem em constante disputa por um “pedaço de céu”. Largas e estreitas avenidas se entrecruzam, tecendo um emaranhado de linhas (retas e curvas) que chegam a formar uma rede à semelhança de um gigantesco quebra-cabeça, que não possui início nem fim. Ruas impermeabilizadas por asfalto, rede de energia elétrica, sinais de trânsito, calçadas estreitas e largas, mansões, jardins, praças, pontes e viadutos dão os retoques finais ao “caos organizado” que compõe a paisagem das cidades. Com pequeno esforço, conseguem-se observar, ainda, as diferenças entre os edifícios, monumentos e outras construções. Este emaranhado de cimento, concreto, ferro e vidro compõem as dezenas de séculos que marcam a intervenção da mão humana sobre o ambiente.
Quando se afasta das regiões centrais, notam-se as mudanças no cenário desta paisagem. Os edifícios minimizam a “disputa pelo céu”, as ruas e avenidas estreitam-se, tornam-se miúdas, afunilam-se ou, simplesmente desaparecem. A paisagem diminui sua magnitude, simplifica-se, despe-se de sua arrogância. O luxo e a ostentação são substituídos por formas toscas, simples, quase desnudas. O céu deixa-se observar em fragmentos maiores e à noite, vez em quando, consegue-se ver algumas estrelas por entre as nuvens de fumaça e pó. Mais adiante, surge o morro com seus casebres, como se fosse um amontoado dos restos da paisagem central, um amontoado de quinquilharias, e a paisagem quase humilhante. As avenidas são substituídas por vielas, um labirinto quase indecifrável, um espaço onde é possível perceber o contraste entre o “belo” e o “feio”, o poder e a dominação, a riqueza e a miséria. Aí aparece o contraste da essência entre a forma e o conteúdo. Pode-se definir o morro, a periferia como o resumo, o resultado da disputa entre desiguais.