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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

TOTALIDADE, OSTENTAÇÃO E POBREZA URBANAS

Foto: Prof. Valter Machado da Fonseca (2017)



Prof. Dr. Valter Machado Fonseca
A simples observação da cidade num breve passeio leva a indagações sobre os diversos tipos de forma, estilos e significações nela existentes. Não é necessário ser um exímio observador para notar as diferentes formas e contrastes presentes na arquitetura das cidades. Nas grandes e médias, estes contrastes são mais gritantes, mas também nas pequenas podem-se observar estas evidências.
Nas regiões centrais, destacam-se um amontoado de edifícios, na sua maioria, verticalizados, os quais parecem em constante disputa por um “pedaço de céu”. Largas e estreitas avenidas se entrecruzam, tecendo um emaranhado de linhas (retas e curvas) que chegam a formar uma rede à semelhança de um gigantesco quebra-cabeças que não possui início nem fim. Ruas impermeabilizadas por asfalto, rede de energia elétrica, sinais de trânsito, calçadas estreitas e largas, mansões, jardins, praças, pontes e viadutos dão os retoques finais ao “caos organizado” que compõe a paisagem das cidades.
Com pequeno esforço, consegue-se observar, ainda, as diferenças entre os edifícios, monumentos e outras construções. Este emaranhado de cimento, concreto, ferro e vidro compõem as dezenas de séculos que marcam a intervenção da mão humana sobre o ambiente.
Quando se afasta das regiões centrais, notam-se as mudanças no cenário desta paisagem. Os edifícios minimizam a “disputa pelo céu”, as ruas e avenidas estreitam-se, tornam-se miúdas, afunilam-se ou, simplesmente desaparecem. A paisagem diminui sua magnitude, simplifica-se, despe-se de sua arrogância. O luxo e a ostentação são substituídos por formas toscas, simples, quase desnudas. O céu deixa-se observar em fragmentos maiores e à noite, vez em quando, consegue-se ver algumas estrelas por entre as nuvens de fumaça e pó.
Mais adiante, surge o morro com seus casebres, como se fosse um amontoado dos restos da paisagem central, um amontoado de quinquilharias, e a paisagem quase humilhante. As avenidas são substituídas por vielas, um labirinto quase indecifrável, um espaço onde é possível perceber o contraste entre o “belo” e o “feio”, o poder e a dominação, a riqueza e a miséria. Aí aparece o contraste da essência entre a forma e o conteúdo. Pode-se definir o morro, a periferia como o resumo, o resultado da disputa entre desiguais.
Neste breve passeio sobre a cidade pode-se ler, resgatar, interpretar e até traduzir um pedaço da história dos homens, povoada de signos, de diferenças, de representações, de poder e dominação. A cidade vista em sua forma desnuda, fria, sem vida, não passa de um invólucro de uma história de disputa desigual entre diferentes.  É o mundo banalizado das imagens!
A produção do espaço da cidade é fruto de um processo histórico e social de afirmação do homem sobre a natureza. É preciso enxergá-la como fruto de um processo não linear, simples e contínuo, envolvendo elementos contraditórios ligados ao jogo do poder entre dominantes e dominados ao longo da história humana.
Também um monumento histórico pode significar além da representação de um dado acontecimento, que marca um período, também uma marca da opressão de um povo sobre o outro, de uma classe sobre a outra ou da exploração do homem pelo próprio homem. A cidade nada mais é que o trabalho humano materializado, cristalizado ao longo do processo histórico e social da civilização humana.

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