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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O PLANETA EM CHAMAS!

Ilustração do planeta em chamas                         Fonte: bomambiente.com


Valter Machado da Fonseca


O “Aquecimento Global” é o tema do momento. Mas, desta vez não se trata de mais um “modismo”, como aconteceram em várias oportunidades com o sensacionalismo dado pela rede de comunicação de massas, inúmeras vezes, às temáticas ambientais. Vários estudiosos sérios, de diversos ramos das ciências da Terra, há muito já chamavam a atenção para o drástico grau de enfermidade do planeta. O planeta dá claros sintomas de seu estado febril, de seu estado de agonia.
Mas não se trata de uma febre qualquer, mas de uma reação ao vírus da prepotência humana. A terra responde da única forma que lhe resta, com a única alternativa que lhe é oferecida. Quando um organismo de qualquer forma de vida encontra-se em estado febril, com a conseqüente elevação de temperatura, é sintoma da existência de alguma infecção, de algum elemento pernicioso ao seu funcionamento, ou, simplesmente, uma reação à presença de quaisquer corpos estranhos, incompatíveis, contraditórios com seu metabolismo. O aquecimento dos corpos é o sintoma da reação dos anticorpos que agem para expulsar os vírus estranhos, que podem ser letais para esses organismos, podendo levá-los à morte. Isto ocorre com a saúde do Planeta, ele está febril.
A situação está tão séria que o inatingível George W. Bush, o “juiz supremo da humanidade”, aquele que paira sobre o conjunto dos povos, como “polícia do mundo”, pasmem: o mesmo que há poucos anos se recusou a assinar o Protocolo de Kioto, já admite reduzir em 20% a emissão de poluentes para a atmosfera. A rendição do “Senhor da Guerra” diante dos fatos é outra evidência do grau de enfermidade da Terra.
Não existe mistério para explicar o “Aquecimento Global”, os fatos falam por si mesmos. O homem experimentou o paladar saboroso do lucro proporcionado com a exploração desmedida dos recursos da natureza e, acreditou que não existiam limites para sua ganância. Afinal de contas, a natureza existe para servi-lo, unicamente para isso, imagina ele, na sua infinita e “infalível racionalidade”. Afinal, a terra pode suportar tudo, ela é “matéria morta”, “natureza inanimada”, não possui a infinita capacidade de raciocínio do Homo sapiens. E é, exatamente contra este vírus letal da prepotência humana, que a Terra reage e lança seus anticorpos. O avanço sem precedentes da tecnologia, a racionalidade técnica e científica dão poderes ilimitados à prepotência gananciosa da espécie humana. É dentro deste contexto que o Planeta reage.
Mas, a reação do Planeta é altamente democrática. Ele não separa os “homens bons” dos “homens maus”, os sensatos dos insensatos, os ricos dos pobres, os poderosos dos miseráveis, pelo contrário, sua ira atinge todos os homens indistintamente. Esta é sua suprema e sábia democracia. A “natureza morta”, que o homem acreditava dominar e explorar dá mostras de sua força, de sua sapiência, de sua vida, de sua supremacia. E é sob esta ótica que este texto pretende debater e discutir o fenômeno do “Aquecimento Global”. É dentro desta lógica que se pretende construir este texto, desnudando a hipocrisia humana, colocando às claras sua prepotência e irracionalidade.

O que é o progresso e o desenvolvimento que a humanidade tanto cultuam?

Para iniciar este tópico é importante recorrer à brilhante formulação de Carlos Walter Porto Gonçalves (2004):


Com a questão ambiental estamos diante de questões de claro sentido ético, filosófico e político. Que destinos dar à natureza, à nossa própria natureza de seres humanos? Qual é o sentido da vida? Quais os limites da relação da humanidade com o planeta? O que fazer com o nosso antropocentrismo[1] quando olhamos do espaço o nosso planeta e vemos como ele é pequeno e quando entendemos que somos apenas uma dentre tantas espécies vivas de que nossas vidas dependem? (GONÇALVES, 2004, p.18)

 A citação de Gonçalves leva à reflexão sobre as relações da humanidade com a natureza, com o Planeta. Tudo hoje se justifica em nome do “progresso” e do (des)envolvimento.
Que progresso é este, que se justifica por meio da destruição do planeta? Que progresso é este, que para se sustentar tem que destruir vidas alheias?
Que desenvolvimento é esse que leva continentes inteiros à situação de miséria, para sustentar o bem-estar social das nações ditas desenvolvidas? Que desenvolvimento é esse, onde as nações “desenvolvidas” utilizam as nações pobres como depósito de lixo? Que desenvolvimento é esse, onde as nações para demonstrar supremacia econômica têm que produzir armamentos nucleares, transformando o planeta num depósito de lixo atômico?
A humanidade precisa responder, urgentemente, a estas questões, se quer, realmente, alcançar o tão almejado “progresso” e o tão cobiçado “desenvolvimento”. Para se alcançar o bem-estar, é preciso primeiro compreender o significado da vida.
É notório que a problemática ambiental acirrou-se, basicamente, a partir da Revolução Industrial e, seus efeitos mais gritantes começaram, de fato, a serem percebidos a partir da década de 1960, quando o Planeta começou a dar respostas às agressões contra ele dirigidas. Estas respostas vieram na forma de grandes catástrofes, às quais o homem chama de “naturais” como: o efeito estufa, o buraco na camada de ozônio, as “chuvas ácidas”, o aumento considerável na temperatura e no nível dos oceanos, o aquecimento global, as alterações climáticas, as grandes enchentes, maremotos, furacões, terremotos, o derretimento das calotas polares, dentre outras.
Desta forma, a necessidade da reflexão sobre os laços que unem a sociedade à natureza se faz urgente, no sentido de se evitar o colapso total. É preciso resgatar, acima de tudo, o verdadeiro significado da vida, significado este há muito perdido diante da lógica irracional da ação do homem sobre a natureza. É preciso o entendimento de que a vida vai muito além da existência ou não do homem: vai desde suas formas mais simples até as mais complexas.
A própria legislação desvirtua o sentido da vida, ao resgatar o homem como centro do universo, esta visão antropocêntrica demonstra a miopia política que reveste o ser humano e, ao mesmo tempo legitima as suas ações degradantes sobre a natureza, permitindo a exploração de seus recursos a seu bel prazer, não importando as conseqüências dessas ações

 O sertão pode virar mar, o mar pode virar sertão!

Diferentemente do que propagam os veículos de comunicação de massa, a terra é um sistema complexo, vivo, dinâmico. Apesar de sua aparência estática, o planeta Terra está sempre em movimento, seguindo sua própria dinâmica, a qual, por sua vez, está em sintonia com a dinâmica do universo. Desta forma, a Terra se movimenta e está em constante transformação, daí, pode-se afirmar que o planeta não é estável, o que significa que ele pode construir um novo desenho em suas estruturas e até mesmo na disposição dos continentes em seu mapa. Assim como num passado não muito remoto, geologicamente falando, os continentes se desmembraram, em curto espaço de tempo eles podem, novamente, adquirir novo desenho, nova configuração. Tudo depende da correlação entre as forças internas e externas que atuam sobre o planeta. Por isso, as teorias que afirmam que a Terra já atingiu sua estabilidade, ou caminha para ela, não se constituem numa verdade. O desaparecimento de uma espécie inteira de seres vivos, os dinossauros, é um fato cientificamente comprovado.
A dinâmica é o movimento da terra, onde cada força, que incide sobre este movimento, interage com outra força, no sentido de garantir o frágil e complexo equilíbrio do grande ecossistema global. Assim, existem forças que atuam internamente sobre a Terra e aquelas que atuam na porção externa do planeta. Por isso, diz-se que a Terra possui uma dinâmica interna e outra externa.
Existem cinco elementos fundamentais para a manutenção do equilíbrio do ecossistema terrestre, interdependentes e interligados entre si, são eles: o sol, água, atmosfera, clima e organismos. Estes cinco elementos atuam, diretamente, sobre a dinâmica da terra regulando-a, são primordiais para a manutenção do equilíbrio do ecossistema planetário, bem como para garantir a continuidade de todas as formas de vida no ambiente terrestre. A interferência brusca e desordenada sobre estes elementos, seja em seu conjunto ou sobre cada um deles separadamente, pode ser letal para a saúde ambiental do planeta. O fenômeno do aquecimento global interfere, diretamente, sobre estes elementos, principalmente sobre a atmosfera. A intervenção humana sobre a atmosfera contribui, de forma decisiva, para as alterações climáticas e, conseqüentemente para o “Aquecimento Global”

 Aquecimento Global: um dos maiores problemas ambientais de todos os tempos. 

O fenômeno do “Aquecimento Global” nada mais é do que o resultado da interferência gananciosa do homem sobre o ambiente. O homem começa a colher os frutos de sua própria imprudência. A própria Física explica brilhantemente este fenômeno, que é resultado do desequilíbrio do conjunto de forças que sustentam o ecossistema planetário. “A cada ação corresponde uma reação, de mesmo módulo e sentido contrário”.
O processo de desenvolvimento industrial, a fabricação de automóveis em série, os desmatamentos, as queimadas, a prática das monoculturas e a urbanização desordenada, estes fatores deram início à poluição atmosférica, por meio da emissão de gases nocivos para a atmosfera, a exemplo do monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO2), o metano e óxido nitroso.
A emissão de gases poluentes para a atmosfera tem aumentado, de forma nunca vista, o número e o agravamento de doenças respiratórias, além do aparecimento de novas doenças. A emissão desses gases provoca o chamado efeito estufa, que tem influência direta sobre o “Aquecimento Global”.
O efeito estufa é provocado fundamentalmente pela emissão de poluentes (principalmente gases tóxicos) para a atmosfera. As grandes fontes de emissão destes gases são os automóveis, as queimadas (provocadas e espontâneas), os desmatamentos, a queima de combustíveis fósseis pelos grandes pólos industriais. Dentre estes, os automóveis têm um papel decisivo, pois circulam sem nenhum controle, muitas vezes em condições precárias e aumentam em quantidade, quase que de forma exponencial. Estima-se, segundo fontes das Nações Unidas que a população mundial, nos dias de hoje, atinja a casa dos 6,5 bilhões de habitantes, a frota de automóveis atinja a casa de 725 milhões e a emissão de gás carbônico (CO2) para a atmosfera atinja a marca de 7,3 bilhões de toneladas (Fonte: Organização das Nações Unidas, 2006). Estes números demonstram bem o tamanho do problema e a dimensão dos estragos causados pela queima dos combustíveis fósseis e seus derivados. Na verdade, segundo a opinião da própria ONU, este já é um quadro quase que irreversível.
O “efeito estufa” se forma pelo acúmulo de gases tóxicos na atmosfera da Terra. O gás carbônico (CO2) e outros gases formam uma espécie de capa na atmosfera que funciona como uma estufa: permite a entrada de raios solares, mas retém parte do calor refletido pela superfície terrestre, que de outra forma se dissiparia no espaço. Isso manteria a temperatura amena e permitiria a vida na Terra. A poluição provocada pelo homem aumenta a concentração de gases do efeito estufa, rompendo o equilíbrio climático. O descontrole na produção de automóveis, de atividades industriais e agroindustriais, as queimadas, a remoção da vegetação, dentre outros fatores, aumentam, de forma drástica, a quantidade de poluentes emitidos para a atmosfera agravando, cada vez com mais intensidade, o problema do efeito estufa. O efeito estufa interfere de forma direta nas alterações climáticas e no “Aquecimento Global”, um dos maiores problemas ambientais, detectado nestes últimos tempos.
O Brasil, apesar de defender a diminuição da quantidade destes gases poluentes, ocupa um lugar de destaque (4º lugar, com 5,4% da emissão total de gases poluentes) no ranking dos países que mais poluem a atmosfera planetária, os EUA ocupam o 1º lugar, com 15,8% do total. É importante destacar que, para a poluição atmosférica não existem fronteiras, pois as massas de ar se deslocam tanto verticalmente como horizontalmente. Desta forma a poluição atmosférica produzida no Brasil atinge também outros países e vice-versa. Portanto, qualquer ação de combate a este tipo de poluição, tem que envolver o conjunto de países responsáveis por ela, caso contrário elas não terão nenhum efeito. 
KLINTOWITZ, 2006 destaca algumas sérias conseqüências, às quais ele chama de “as seis pragas do aquecimento”, são elas:


1 – O derretimento do Ártico: A cobertura de gelo da região no verão diminui ao ritmo constante de 8% ao ano há três décadas. No ano passado, a camada de gelo foi 20% menor em relação à de 1979, uma redução de 1,3 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente à soma dos territórios da França, da Alemanha e do Reino Unido.

2 – Os furacões estão mais fortes: Devido ao aquecimento das águas, a ocorrência de furacões das categorias 4 e 5 – os mais intensos da escala – dobrou nos últimos 35 anos. O furacão Katrina, que destruiu Nova Orleans, é uma amostra dessa realidade.

3 – O Brasil na rota dos ciclones: Até então a salvo desse tipo de tormenta, o litoral sul do Brasil foi varrido por um forte ciclone em 2004. De lá para cá, a chegada à costa de outras tempestades similares, ainda que de menor intensidade, mostra que o problema veio para ficar.

4 – O nível do mar subiu: A elevação do nível dos oceanos, desde o início do século passado está entre 8 e 20 cm. Em certas áreas litorâneas, como algumas ilhas do Pacífico, isso significou um avanço de 100 m na maré alta. Um estudo da ONU estima que o nível das águas suba 1 metro até o fim do século. Cidades à beira-mar como Recife, precisarão de diques de contenção.

5 – Os desertos avançam: O total de áreas atingidas por secas dobrou em trinta anos. Um quarto da superfície do planeta é agora de desertos. Só na China, as áreas desérticas avançam 10.000 km2/ano, o equivalente ao território do Líbano.

6 – Já se contam os mortos: A organização das Nações Unidas estima que 150.000 pessoas morram anualmente por causa de secas, inundações e outros fatores relacionados diretamente ao aquecimento global. Em 2030, o número dobrará. (KLINTOWITZ, 2006, p.76-77) 
 Para não concluir: considerações parciais. 
Os mais antigos não precisavam de previsão do tempo, diziam: hoje vai chover, chovia. É tempo de plantar, plantavam e colhiam. Hoje vai esfriar, esfriava. Hoje vai dar boa pesca, pescavam o peixe fresco.
Mas, hoje o homem tenta prever o imprevisto. Tem seca na Amazônia, morrem milhões de peixes. Tem enchente no Nordeste e seca no Sul. Tem inundação pra todo gosto, no Norte, no Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste. Tem furacão, Tsunami, terremoto, tornados, pragas, chuva ácida, muitas doenças (novas e a volta das antigas). E, o homem, ainda, tenta jogar a culpa na natureza. Enquanto isso continua fabricando milhões de automóveis, desmatando a Amazônia, desertificando o Nordeste e o Sul, brigando por petróleo, contaminando as águas e os solos.
Nos tempos modernos, transformações que a natureza levaria centenas, milhares e até milhões de anos para processar, acontecem em poucos anos, ou até mesmo em dias, sob a ação humana. O planeta está seriamente enfermo. Estudos mostram a gravidade do atual estágio de degradação ambiental do planeta, ao mesmo tempo em que apontam para soluções incertas e duvidosas. Cientistas chegaram à desoladora conclusão que a problemática do “Aquecimento Global” tornou-se um processo irreversível. Chegaram a afirmar que a floresta amazônica vai virar savana, o cerrado (as manchas que ainda restam), os campos e o sertão do semi-árido vão virar desertos.   Chegaram mesmo a afirmar que a espécie humana, tem um comportamento inédito (no sentido de destruição e desequilíbrio), dentre todas as espécies, cujas vidas já foram registradas no planeta, em todos os tempos.
A espécie humana, apesar de possuir apenas alguns segundos de existência, geologicamente falando, já causou danos e estragos nunca dantes conhecidos. Estas mesmas pesquisas apontam para a extinção da espécie humana em apenas mais alguns segundos (em tempo geológico) de existência sobre a face da Terra. Após a extinção do homem, a terra, com certeza, se recomporá de uma forma mais saudável, sem a ameaça da existência humana. Aí, a Terra terá conseguido levar a cabo sua reação, terá expulsado de seu organismo, da forma mais dolorosa, o vírus pernicioso da prepotência humana, o grande responsável por suas enfermidades e seu estado febril.

 Referências:

 GONÇALVES, C. W. P. O desafio ambiental. Emir Sader (org.). Rio de Janeiro: Record, 2004. __ (Os porquês da desordem mundial. Mestres explicam a globalização).

KLINTOWITZ, J. APOCALIPSE JÁ. In: Rev. VEJA. 1961 ed. Ano 39. Nº. 24 de 21 de junho de 2006, p. 68-83.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Relatórios ambientais oficiais, 2006.

 
 

 


[1] Grifo meu. Antropocentrismo refere-se à concepção da corrente filosófica que considera o homem como o centro do universo.

 

 

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