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Foto: Incêndio em Santa Maria (RS). Fonte: g1.globo.com |
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Foto: Enchente em Duque de Caxias (RJ). Fonte: noticias.uol.com.br |
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Foto: Queda do alambrado de São Januário (RJ). Fonte: www.supervasco.com
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Foto: Queda do Edifício Palace II (RJ) Fonte: apatrulhadalama.blogspot.com |
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Foto: Incêndio no Edifício Joelma (SP). Fonte: devorador-d6-pecado.blogspot.com |
Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca*
A tragédia ocorrida em Santa Maria (RS)
no último sábado (17 de janeiro), na qual mais de duas centenas de jovens
pereceram, vitimados por um incêndio de grande proporções na Boate Kiss,
levanta e põe em foco o debate sobre o planejamento e prevenção nas obras e nas
estruturas da construção civil, em especial nas construções que visam ao
atendimento de grandes aglomerados de população, como é o caso de casa de
shows, boates, teatros, cinemas, estádios, dentre outros locais para grandes
aglomerações.
No Brasil, é muito comum a falta de
preocupação com o planejamento e prevenção de acidentes em obras da construção
civil. Mesmo com exemplos históricos como o caso do grande incêndio no edifício
Joelma (SP), a queda dos alambrados no estádio de São Januário (RJ), os casos
do desmoronamento do edifício Palace II na Barra da Tijuca (RJ), os desmoronamentos
em Duque de Caxias (RJ), bem como os frequentes incêndios de menor amplitude
registrados no interior do Brasil, os responsáveis pela construção civil no
país não dão o devido realce à questão do planejamento das obras com o foco na
prevenção de prováveis acidentes. Existe aí uma inversão total da lógica (ou
não, talvez esta seja a lógica deles), em primeiro lugar se prioriza a
quantidade de pessoas em função do lucro e, por último pensa-se minimamente na
questão da segurança dessas pessoas.
Inúmeros são os descasos que vão desde as
fundações que sustentarão taís construções, como a utilização de materiais de
baixa resistência e de baixa qualidade, descuidos com a fiação e a parte
elétrica, utilização de materiais inflamáveis onde não se pode em nenhuma
hipótese utilizar este tipo de material, dentre outros fatores. No caso da
Boate Kiss a irresponsabilidade foi total, ao utilizarem materiais como espuma
e/ou isopor (subprodutos do petróleo, como ficou evidenciado pela rapidez do
fogo e a cor escura da fumaça) como suporte de teto para proteção acústica. Mas, o mais grave nesta questão e que a dor
das mortes em Santa Maria infelizmente trouxe à tona, é a questão das saídas de
emergência. Quando se trabalha com grande público em locais fechados a questão
da evacuação destas pessoas em caso de acidentes graves passa a ser
fundamental, o mais importante, sob pena de a contrapartida ser as vidas de
milhares e/ou centenas de pessoas. Como é que pode, um local entupido com mais
de duas mil pessoas, possuir apenas uma saída de emergência? Trata-se de uma
estupidez total.
Espero que esta tragédia, que a morte de
maneira totalmente estúpida de mais de duas centenas de jovens tenha servido de
lições para a construção civil em nosso país. Será que a “economia” feita com a
segurança na construção da Boate Kiss vale a perda de tantas vidas? Espero que
a partir do sofrimento de centenas de famílias, os responsáveis pelo setor de
construção civil no Brasil passem a dar valor em duas palavras que somente são
utilizadas nos discursos dos politiqueiros de plantão em épocas de eleição:
planejamento e prevenção. Caso contrário, em breve grande parte da população do
país terá esquecido essas valiosas vidas perdidas e voltará a contar seus
mortos em possíveis futuros acidentes.
* Escritor. Geógrafo, Mestre e Doutor pela
Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-Doutorando pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisador
e professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE). machado04fonseca@gmail.com